domingo, 14 de julho de 2013

Coisas que me tiram do sério




Estes primeiros dias de aulas têm sido recheados de emoções. Emoções boas e outras que nem tanto. Se há coisinha que me tira do sério nesta terra é a falta de respeito que existe no trânsito. Este pessoal não sabe o que é respeito entre veículos e motoristas. E se no início, quando para cá vim, dava passagem a tudo e a todos, principalmente aos angolanos (sim, é uma questão de medo de confusão), hoje em dia a coisa não é bem assim. Não dou passagem se não tiver de dar. Se se meterem pelas bermas ou à “fangios” não dou passagem. E se forem brancos então ainda menos. Se há alturas em que ainda pondero (no caso por exemplo de militares...sim dou!) no caso de serem brancos não hesito mesmo.
Acho uma vergonha que os portugueses que para cá vieram trabalhar ao fim de meia dúzia de semanas já conduzam sem qualquer tipo de regras. Gostava muito de saber se quando chegam a Portugal fazem as mesmas asneiras vergonhosas. É exactamente isso que lhes pergunto muitas vezes aos gritos de dentro do meu carro. Embora eles não me respondam. Já ouvi respostas de pessoas próximas do género  “em Roma sê romano” mas não me vejam com historias. Agora vamos ficar estúpidos a conduzir? Vamos ultrapassar pela direita? Vamos andar nas bermas? Vamos andar em sentido contrario e vamos fazer 5filas numa rua de dois sentidos? Haja santinha paciência porque santa já não chega. Porque carga de agua acha que uma pessoa que tem o direito de passar à frente de todos aqueles que estão numa fila há horas? O que leva uma pessoa ao volante a achar que é mais inteligente que os outros ou que merece passar enquanto os outros permanecem parados? Não entendo! E se posso tentar entender quem sempre conduziu assim e não aprendeu doutra maneira, não consigo compreender quem em Portugal conduz duma forma e aqui doutra. Para esses não há paciência. Isso chama-se estupidez. E ficooooooooooooo tola com tanta!
Depois por outro lado há coisas curiosas que me apercebo nas aulas. Estas novas turmas, muito maiores (a turma da noite tem 65 alunos) têm originado novas experiências e novas descobertas sobre dar aulas, sobre alunos e particularmente sobre alunos angolanos. Uma delas é o respeito que os alunos têm pelo “delegado de turma”. Normalmente são alunos mais velhos, elegidos pela turma e muito respeitados por esta. A sua palavra é ordem. É lei.
Acontecem situações engraçadas muito engraçadas frutos desta hierarquia. Ainda hoje, um aluno entrou na aula de manha de chapéu. E o Sr Manuel, prontamente(sim, porque é um aluno realmente mais velho que eu) olha e diz com uma calma impressionante “ colega, está sol cá dentro?”. E esse aluno, um puto novo, automaticamente tirou o chapéu dizendo “ peço desculpa!”. O mais velho fala e o mais novo obedece sem questionar. Quando a turma começa a falar por exemplo, mesmo antes de eu intervir, o Sr. Manuel manda-os calor. E eles calam-se (bem, a maioria das vezes!). É engraçado ver como certos hábitos ainda estão tão presentes na cultura angolana. Engraçado e quase contraditório. Este exemplo seria praticamente impossível de acontecer em turmas portuguesas. Nos, e eu falo também por mim enquanto fui aluno, nunca admitiria uma ordem de um colega apenas por este ser mais velho. Se há situações que me espantam pela negativa, como a falta de regras de transito com que me deparo diariamente, ou a falta de limpeza das ruas pois tudo se atira para o chão, há outras como esta que me fazem relembrar valores muitas vezes esquecidos em Portugal. O respeito pelos mais velhos é uma coisa que aqui ainda conta muito.
Ser “mais velho” aqui é num posto. É quase que um nome e não um adjectivo. O próprio Presidente é apelidado muitas vezes de “o mais velho” como se isso representasse um conhecimento, um acumular de sabedoria. Ele é O mais velho de todos. O que sabe mais. Ou seja, respeitam o delegado, acatam o que ele diz, mas depois afiam os lápis para o chão, ou não entendem o que são filas. Haja contradição nesta terra de ultramar. E como se diz na minha: “dão uma no cravo e outra na ferradura”.

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