Texto escrito a 7 de Outubro
Não há vez que veja o Gladiador
que não chore. Nenhuma. Já vi o filme vezes sem conta, sei falas..e no entanto,
na derradeira luta final, mesmo antes dele morrer os meus olhos parecem um
lago. Não sei se é a música, se é a cena em si, mas choro sempre. Mas choro
mesmo. Ainda ontem chorei. Pensava cá para mim, enquanto via a cena final que a
morte deveria ser assim. Um campo de cereais na Toscana. Uma paisagem linda sem
fim, como se percorrêssemos um caminho até encontrar quem amamos. Com calma,
beleza, serenidade. Com aquela brisa quente no rosto. Será assim?? Nunca fui de
pensar nisso e desde que o meu querido pulmão me pregou aquele ‘susto’ que
durará para toda a vida e mais seis dias, nem gosto propriamente do tema. Para
uma “não-quase-nem sempre-nunca-depende dos dias” católica é uma visão
simpática. Para alguém com um ‘susto para toda a vida’ dos meus, uma visão
adorável. E enquanto pensava nisso, em morte e em encontrar quem amamos como o
Gladiador encontra, lembrei-me que dia era hoje. Realmente a vida tem destas
coincidências. Fazer-me pensar em morte, em encontrar quem já morreu, ou
partiu, ao som daquela maravilhosa banda sonora no dia 7 de Outubro. Pensar em
morte com aquela serenidade…Faz hoje exatamente dez anos que perdi o chão. Acho
que na minha vida perdi o chão duas vezes e uma foi exatamente há dez anos, às
6.20 da tarde quando o meu telefone tocou. Estava no escritório onde era regra
não se poder atender (Yesss eu trabalhei numa ditadura!) e o meu pai ligou.
Rejeitei a chamada. Ligou novamente. Tornei a rejeitar. E encontrava-me a
escrever-lhe uma msg a dizer que sairia dez minutos depois…se era assim tão
urgente, se não podia esperar. Quando ele liga outra vez. Lembro-me de abrir a
porta da sala de desenho e de no corredor ouvir algumas palavras. De voltar à
sala, pegar na carteira e sair, sem conseguir falar. De conduzir o pouco mais
de um km que separava a minha casa do escritório assim meia em transe. Num
transe com medo da verdade. E mal cheguei ao topo da minha rua deparei-me com
ela mesmo. Com uma verdade que me tirou o chão. E nada teve de brisa quente no
rosto. Disseram-me que morreu sem sofrer
como se isso consolasse. E consola. Que a enfermeira que a trazia do lar abriu
o portão e ela entrou e caiu.. caiu lá dentro e assim ficou. Que tinha estado a
jogar cartas toda a tarde. Faria 82 anos passados 2 meses. E aos 7 de Outubro
de 2003 soube o que era perder quem se ama. Perdi quem criou a minha mãe e quem
me criou a mim. Perdi muito mais que uma avó. Não me lembro bem dos dois dias
seguintes. Lembro-me de passado umas semanas cair em mim e pensar que ela nunca
me veria casada, nem nunca veria um filho meu. Nem nunca mais discutiria comigo
por causa dos meus cigarros. Gosto de acreditar que para ela foi como um
passeio num campo de cereais ao som daquela banda sonora. E quero acreditar que
um dia (lá muitoooooooooooooo longe se possível) será assim também. E ela vai
lá estar ao fundo à minha espera. E quem sabe numa paisagem da Toscana.Por enquanto fica uma saudade grande, uma saudade serena. Uma vontade de partilhar momentos ou conversas.
E passaram-se 10 anos…
Emocionei-me Andreia! Não porque alguma vez tenha visto gladiador, não porque já tenha alguma vez apanhado um susto, não porque me dê para pensar em morte. Emocionei-me porque me lembrei da minha avó, de quando recebi o telefonema de madrugada e, tal como tu, pensei nos dias seguintes que nunca me iria ver casar e que nunca iria conhecer um filho meu! Gostei tanto de te ler!
ResponderEliminarChorei ao ler-te. Primeiro porque também eu choro sempre que vejo o Gladiador (até tenho o cd da banda sonora! e aqui imagino-te a dizer "Sara, menoooooos! :)), porque toda aquela história de uma tremenda saudade termina num reencontro naquele campo da Toscânia e eu acho isso tão belo.
ResponderEliminarE porque me fizeste pensar no meu avô, que também foi a primeira pessoa mesmo mesmo querida que perdi, que agarrava nas minhas mãos para as aquecer, e que não me viu terminar o curso, nem casar e que tenho a certeza que ia adorar as minhas pequeninas. E também penso que um dia o hei-de voltar a ver. Chorei pronto, não tenho vergonha de o dizer. Porque gostei muito.
Bem... estou aqui num escritório a ler-te (que não é uma ditadura!) e tenho os olhos rasinhos de água... pelo Gladiador (que vi pela 24º vez com o meu maridão no fim-de-semana passado!) que é quase como um membro da família e pela saudade de quem já não está junto de nós.
ResponderEliminarNos últimos tempos, o que tenho pensado é que começo a ficar sem grandes referências mais velhas! Sem aquelas figuras patriarcais que têm a vida gravada nas rugas da cara e nas mãos e que tanto sabem e tanto nos podem contar. e isso é triste! e obriga-nos a ser mais, a transmitir valores aos nossos pequenos, a sermos melhores pessoas para também podermos ser referência para os que nos seguem.
um beijinho grande, amiga!