terça-feira, 4 de novembro de 2008

1500KM em ANGOLA

6 da manha…Partida! Direcção HUAMBO!!!




à hora marcada lá estávamos nós no ponto combinado para partir em direcção ao interior africano, mais propriamente à cidade do Huambo.

Uma hora e 10m depois (e a Pitú já verde!!!!) lá seguimos viagem.

Claro que a esta hora o transito já era imenso e só entramos na estrada a valer já eram 8h30.

Angola começava a aparecer nas fotos e as paisagens começavam a modificar. Imbondeiros aos montes e a maquina sempre a disparar. Desvio na estrada e eis que nos surge um tanque de guerra abandonado! Começam a ver-se os verdadeiros estragos da guerra que tanto fez sofrer este povo!








Primeira paragem no Dondo (Provincia de Kwanza Norte) para os outros jipes meterem gasolina, pois o nosso “lovely” Prado e os seus dois tanques, aguenta esta viagem a brincar J!Enquanto esperávamos, tomamos uma água e umas cucas no cafezinho da vila (pois não havia maquina de café) e ouvimos a história de uns putos fantásticos.
S.L e o seu amigo até cantaram para nós! Parabéns!Um fantástico momento!















Seguimos viagem novamente…Passando Libolo, Munenga até Kibala (Provincia Kwanza Sul) onde já existe um café com uma cafeteira e foi assim possível deliciarmo-nos com uma água tingida fabulosa!!!


Continuamos até Waco Kugo, onde além de conhecermos o “Ninguém” almoçamos uma feijoada!!Nada mal para as 4 da tarde.


imagens da viagem.....

Perto das 20h e já de noite chegamos por fim ao Huambo.

Um bocado de história….

Cidade fundada a 12 de Agosto de 1912 por decisão do Alto Comissário da Republica Portuguesa, General Norton de Matos, e anteriormente conhecida por Nova Lisboa, graças ao Coronel Vicente Ferreira, que em 1927 entendeu este nome por achar que aqui se deveria situar a Capital de Angola, fruto da sua estratégica localização no planalto Central. Chegou mesmo a ser publicado em Boletim Oficial a nova designação como capital de Angola, mas tal nunca chegou a passar do papel.

Povoação fundada pelo rei Wambo Kalunga, e onde repousam os restos mortais do Rei Ekuikui II, o grande rei dos Ovimbundus, o Huambo trata-se de uma localidade com um peso singular na história do povo Ovimbundu e tem hoje cerca de 2.609km2 e aproximadamente 1200mil habitantes.

O nascimento da cidade do Huambo deve-se ao desenvolvimento dos caminhos de Ferro de Benguela concebido para drenar os minérios da região do Catanga para o Atlântico, e dai serem exportados.

Norton de Matos, em 1912, durante a construção do Caminho de Ferro, procurou nos mapas algo que sugerisse um nome para a localidade..Surge-lhe assim um pequeno Forte do Huambo, onde anteriormente se tinham praticado feitos históricos. Assim, aproveitando a magnifica posição geográfica, politico económica e limitar, surge a 8 de Agosto de 1912 a Cidade do Huambo.

Província rica em manganês, diamantes, volfrâmio, ferro, ouro, prata, cobre, minério radioactivo entre outros, possui a maior altitude do Pais, no Morro Moco, com mais de 2mil metros de altitude.

Sábado à noite pouco vimos da cidade…Jantamos (nada bem por sinal) e ficamos um bocado no restaurante/bar Jango Central.

Domingo, novo dia…partida em direcção à Barragem do Gove, tentando descobrir o que de melhor tem esta província.


as placas também não ajudavam muitooooo!

Após uns kms de caminho, um mapa que de pouco servia, (desculpa Pedro, mas o mapa era confuso) e muitas perguntas a quem passava, percebemos que a barragem era “perto perto..3minutos..sempre em frente!!” estes 3minutos para quem não tem, nem nunca teve relógio é uma medida estranha..Mas..seguimos em frente e duas horas depois encontramos a albufeira da barragem!


...a missa na aldeia..................

Lá almoçamos tipo piquenique e regressamos à cidade! Mais duas horas de picada e o Prado sempre em grande..De regresso á cidade fomos finalmente dar uma volta. As marcas da guerra, e do famoso cerco de 55 dias ainda são visíveis, mas segundo opinião geral de quem cá vive, são mínimas comparadas com a destruição de 1993. Nos últimos anos são patentes as reconstruções efectuadas no Huambo e o centro da cidade possui hoje belas ruas e edificios recuperados..


consequências do cerco dos 55dias.....

Jantar novamente no Jango Central e para nossa surpresa(além da boa comida de hoje) era noite de karaoke!

“Músicas dignas de ser auscultadas” foram a alegria do fim de semana!!!

Segunda feira, regresso a Luanda..Mais 600km de África!

Waca Kungo

Artigos vários….Huambo!

UMA CANÇÃO…

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos de Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Paulo de Carvalho e Rui Monteiro


Carta a um antigo amor
Saudosa Nova Lisboa de outros tempos:

Com o nome de "Cidade do Huambo", nasceste adulta em pleno mato. Foste um dos sonhos do genial visionário Norton de Matos, que aproveitou a inauguração de novo troço da linha férrea que rasgaria Angola até à fronteira Leste, para a sua solene fundação em 21 de Setembro de 1912. Nem todos previram o enorme alcance da extraordinária medida. Muitos a criticaram até, desabridamente.


Mas a tua implantação no Planalto equivalia a injectar no interior de Angola as energias que o levassem à floração plena. Estavas pois fadada para nobres destinos. Aconteceu porém o pior: a Grande Guerra de 14-18 mergulhou o mundo na destruição e debilidade.

Assim, só em 28 recebeste desvelos governativos e, mesmo estes, mais virtuais do que efectivos. Quando em 34 cheguei ao Huambo, foste para mim uma rotunda desilusão: vagueava no vago aglomerado, à procura do que deveria ser uma cidade. Não passavas porém de um esqueleto desconexo: casas incaracterísticas semeadas a esmo, sem o mínimo de condimentos urbanísticos. De dia, espreguiçavas-te ao sol dardejante do planalto; à noite, raros candieiros de gasómetro eram débeis pirilampos pregados no escuro.

Algo havia em ti, contudo, que se insinuava dentro de mim: a pouco e pouco, insidiosamente, foste-me conquistando. Só mais tarde me dei conta da transformação: fora afectado pelo feitiço angolano, refinado pelos teus atractivos. Numerosos, envolventes, dominadores...

Jovem professor de Letras, a convivência com a juventude espicaçava os comuns anseios de ver Angola e de te ver a ti a voardes alto: envolvi-me ardorosamente nos estremeções do teu despertar para o progresso então possível. Lisboa enviou finalmente o Plano Geral de Urbanização. A sua implantação iria empolgar já não apenas os respectivos responsáveis e alguns enamorados por ti, mas uma grande fatia da população citadina. Foi um fervilhar febril, abriram-se ruas, rasgaram-se avenidas, lançaram-se jardins. Obras do Estado e prédios de particulares brotavam a ritmo nunca visto. De menina mal-feitona converteste-te em donzela ciosa das suas potencialidades, empenhada em se valorizar por todos os meios.

Cada vez mais cativante e acolhedora, atraías simpatias e investimentos; inspiravas confiança e solidez; em número galopante, os teus residentes e muita gente de fora deixaram-se contagiar pela febre realizadora - economias possíveis, apoios de cooperativas e empréstimos hipotecários, eu sei lá... Foi bonito acompanhar essa fase do teu crescer e do teu aformoseamento. Por isso te apontei como exemplo de lançamento de novas terras. Eras bem um modelo de como Angola se valorizava, às vezes pelo contributo privado mais do que por directa intervenção do Estado. Devolvíamos a Angola - com alto juro e dividendos - o que de Angola colhíamos com enorme esforço, vivo apego e forte determinação. O ritmo do teu crescimento causou inevitáveis desequilíbrios. Mas conseguiste emendar os mais salientes. Enriquecias em património, em nível intelectual e escolar, em cooperativismo, em solidariedade - o que, tudo somado, te vincou inconfundível personalidade. Ao teu redor, um diadema de rainha: era a constelação de terras bonitas que contigo partilhavam progresso, paz, promoção social das populações planálticas. No seu conjunto - brancos, mestiços e negros - tinham conseguido um milagre singular: converteram o grão pobrissemo do milho, em riqueza para produtores e negociantes. Quanto vale o esforço bem ordenado, a persistência no trabalho, o comando honesto, o carinho pela terra! Porque as tuas gentes praticavam tudo isso espontaneamente, eras um centro irradiante de prosperidade e bem-estar. Se te tivessem deixado continuar nesses trilhos, aglutinando cores e igualizando as pessoas em direitos, condições e meios, serias hoje uma das urbes cimeiras de todo o Continente Africano. Superando-as a todas na vastidão dos teus horizontes infinitos e pródigos para qualquer lado que a gente se virasse. Terra querida, fadada para tocar os céus, ó minha flor de altura! Por que fatalidade és hoje um holocausto de destroços e aniquilação? Será que, ao cair das primeiras chuvas, os cosmos, os lírios e os cólios brotarão da terra, a devolverem-te a esperança?


Por mim, acredito que ressurgirás das cinzas: a tua alma não morre, minha bem amada!

J. MARTINS LOPES

in "O LOBITO" (Set/1999)

beijos mil directos do interior africano

Pitú

Sem comentários:

Enviar um comentário