Ontem, falava com uma amiga sobre
o Kenya e sobre o ir viajar com a insegurança que se faz sentir estes dias. Não
sou “corajosa”. Mas tão pouco me acho imprudente. Penso nos sítios para onde
viajo e hoje em dia, o factor terrorismo/política, pesa muito (demasiado) nas minhas decisões. Há sítios
belíssimos do mundo, que eu anseio por conhecer e que neste momento não tenho
coragem. E um deles é o Sul da Turquia. Ou Israel, ou Karachi, ou Damasco que já pouco deve ter para conhecer. Há uns anos tive o privilégio de passar
uma semana em Istambul e lembro-me de na altura, um amigo nosso brincar e dizer
que íamos festejar a entrada do ano com bombas. Foi isso mesmo na altura- uma
brincadeira, em que nos rimos do ridículo da situação. Estávamos em finais de
2005 e falar de bombas na Turquia era de todo isso - ridículo! Não podia ter
sido uma semana mais feliz. Os turcos foram impecáveis, ainda que à moda de um
povo verdadeiramente comerciante, fossem um bocado chatos nas compras, e a
cidade é simplesmente fabulosa. Tem uma vida, um frenesim, uma agitação, um
cheiro próprio duma grande capital, aliada à particularidade de ser uma
verdadeira rótula entre civilizações, entre mundos, entre continentes, mas e
acima de tudo, entre mentalidades e religiões. E isto, infelizmente nos dias de
hoje, tornou-se o motivo pelo qual eu não viajaria com o meu filho a
Istambul, nem tão pouco à Turquia. O que noutra época me fascinou a mim e a
todos os autores de livros incríveis sobre o Bósforo, a todos os realizadores
de tantos maravilhosos filmes, é o que nos afasta hoje. A sua
multiculturalidade hoje, lamentavelmente, afasta-nos ou faz-nos ter medo.
Ao ver a foto da homenagem às
vitimas de Nice, lembrei-me das primeiras férias que passei com o Guilherme. Ele
tinha três meses e escolhemos a Cote D’Azur para o seu primeiro destino. Ficamos
no Meriden no Passeio dos Ingleses, e à meia noite do ultimo dia do ano,
viemos, juntamente com uns milhares de pessoas, a essa mesma marginal, festejar
a entrada do ano e uma nova vida a três. Hoje, esse local, está carregado de tristes
acontecimentos e memórias e isso custa-me muito.
Nunca tive medo de visitar um país
árabe até porque o Islão sempre me fascinou. Sempre achei que quanto mais “diferente”
fosse o local, mais me sentiria em férias. Adorei o Egipto, amei loucamente
Marrocos onde passamos mais de três semanas a fazer kms com a alegria da
primeira grande viagem aos vinte e dois anos e também Istambul me fascinou. E hoje,
que tenho um filho, queria partilhar com ele, parte deste mundo tão bom que
conheci e de outro tanto (muito mais) que me falta ver. E tristemente dou por
mim, a riscar destinos da minha lista. A riscar a Europa porque está perigosa,
a riscar o Médio Oriente porque parece um barril de pólvora, a escolher muito
bem em Africa, porque o terrorismo alastra.
Lia ontem que o turismo na
Turquia desceu 35% este ano. Na Tunísia cerca de 40% face aos últimos dois
anos. Até Paris, a cidade mais visitada do mundo, perdeu cerca de 15% das suas
visitas.
No Kenya, em Mombassa, o cenário é
desolador. Nos 60 km que ligam Mombassa ao ponto sul da Diani Beach, são
dezenas os imóveis, na sua maioria hotéis, abandonados. Dezenas! Hotéis que
outrora foram cenários paradisíacos, hoje estão abandonados e quase em ruínas. Em conversa com os locais, a tristeza é generalizada e o motivo bem
conhecido – a violência pós eleições e o terrorismo de alguns grupos disseminados
pelo país. O turismo, grande pilar da economia na década de 70, 80 e 90 (já
atingiu cerca de 60%do PIB) foi diminuindo nos últimos anos, mas desde 2014 e
os últimos problemas nas fronteiras do Kenya, a queda foi abrupta. É possível ver
hotéis lindos, bem desenhados, de um charme incrível que hoje a sua ocupação não
justifica sequer a manutenção.
Sim, pensando friamente, o que é
o problema de viajar e conhecer mundo, face à perda de vidas diárias? Não há comparação
possível logicamente. Mas custa-me. Doí-me pensar em todas as vidas que não se
perdem numa bomba, mas que ficarão limitadas no pensamento, nos sonhos.
Custa-me pensar que tenho medo de ir, de aterrar num sitio longínquo (ou não).
Custa-me pensar que há cidades a ficar desertas (mesmo as que não têm bombas e
mortos) apenas consequência do medo. Custa-me pensar que não vou visitar a Siria e os seus tesouros inigualáveis. Custa-me pensar que o medo vai ganhar e
instalar-se por esse mundo fora.
E o medo, é a maior e a mais perigosa de todas
das armas.