Dos 487 amigos que tenho no facebook não conheço pessoalmente seis. Destes seis, sendo que quatro são situações comerciais, uma é a Margarida. Troquei umas mensagens há cerca de três anos com ela, num grupo de mães. Ela estava gravida, eu já tinha tido o Guilherme. Julgo que já estava em Angola, mas não posso precisar. Ela ia voltar com a bebê.
Angola, Luanda, e as suas dificuldades, acrescidas pelo facto de sermos (ambas) mães pela primeira vez aproximaram-nos, ainda que apenas ciberneticamente. Convidei-a no fb, coisa que nunca fiz (mandar convites a quem não conheço!).
Ela regressou e fomos trocando comentários, a maior parte dos quais humorísticos, sobre o transito, os iogurtes, ou o tempo.
Nunca nos vimos, nunca tomamos um café, mas quando soube que ia embora, fiquei a pensar nisso...
A Margarida vai embora e escreveu ontem
estas palavras... Não posso e não quero deixar de partilhar.
" Olá Angola,
Já deves saber - porque aqui tudo se sabe - que me
vou embora. Vou-me embora em breve, praticamente seis anos depois de te
ter conhecido pela primeira vez. Essa primeira e inesquecível vez em
que me apaixonei por ti, nem sei porquê: terão sido as tuas
incongruências indecifráveis? O teu cheiro inconfundível a terra
vermelha de todas as vezes que saí do avião? Serão as tuas pessoas de
sorriso fácil? As tuas paisagens de tirar o fôlego? Ou os pores do sol
mais rápidos e intensos do mundo? O teu
mar azul cantado pela Yola, ou terá sido a música, ah, a música e a
dança que me faz vibrar em emoções inexplicáveis. Não sei. Foi tudo isto
numa azáfama de emoções que nem me deixava tempo para pensar se estava
bem ou não. Estava feliz e pronto. Estava viva, no auge da minha
juventude, a viver o destino que para mim escolhera. E o meu destino
eras tu.
Deste-me tanta
coisa boa. Foste a minha casa, o meu lar, durante estes anos. Foste as
minhas ruas, as minhas estradas, as minhas pessoas, as minhas praias.
Foste a minha referência. Tive muito orgulho em ti e expliquei-te quando
ousaram dizer mal de ti. Foi aqui que me apaixonei, foi aqui que fiz a
minha filha, foi para aqui que a trouxe com três meses, cheia de força e
contei com a ajuda da melhor babá do mundo. Obrigada por tudo. Obrigada
a cada um de vocês que de alguma forma fez parte desta minha aventura.
Também foste palco das maiores agruras, das dores mais fortes e dos
maiores sustos e por isso, olha Angola, obrigada. Obrigada por me teres
feito crescer.
Obrigada por me teres recebido uma menina e me deixares ir uma mulher.
É tempo de ir.
Até sempre,"
Nunca me apaixonei aqui, nem por Angola, nem por ninguém, como a Margarida. Também aqui não foram os meu maiores medos.
Mas aqui cresci muito, aqui me fiz mãe, e aqui também fui muito feliz. Aqui é a casa que o meu filho reconhece como tal.
A Margarida é apenas uma, das muitas que me tenho despedido ultimamente. e cada pessoa que vai, amiga, conhecida ou apenas "faceamiga" leva um bocado da nossa esperança, do que era a nossa casa cá e que está a ir embora.
À Margarida desejo sorte! Muita! E tenho a certeza que a vida, um dia, nos pagará um café!