Mais um
voo. Mais uma viagem até casa. A viagem do ano. Esta é a Viagem. Correndo o
risco de ser pirosa a escrever, esta é a viagem mais esperada do ano. Há
neste dia qualquer coisa que nos une , aos emigrantes. É o dia que chegamos ao
aeroporto e parece que Angola vai ficar vazia. Caras conhecidas (cada vez
menos, é certo) nos cantos e sempre a mesma conversa. Vais por onde? O teu voo
esta no horário? Falta pouco! Boas festas! São sentimentos estranhos, até
saudosistas. Parece que somos uma grande, grande família. Todos unidos porque
vamos a casa. Todos contentes, felizes! Vamos nós, os tugas, mas também vão os.
Ingleses, os franceses, os espanhóis. Vamos todos ao Natal a casa. E era esse o
sentimento ontem no aeroporto de Luanda. Nas horas (imensas) de fila da
imigração. No avião da Lufthansa, a maioria eram passageiros das petrolíferas,
pessoal do mar. Todos grandes, em tshirt, felizes e a cantar de irem a casa.
Não sei se este é o sentimento em outros aeroportos, outros países, mas ontem
lá foi assim. Todos unidos porque íamos felizes, a casa. Há qualquer coisas nas
caras com quem nos cruzamos esta semana. Qualquer coisa que se chama uma
felicidade simples! A maior parte de nós não leva dólares como outrora, não conseguiu
transferir dinheiro, não sabe o dia de amanha em Angola, mas o sorriso hoje não
dizia nada disso. O sorriso hoje falava em família, voltar à terra, ver os
amigos. Falava em frio, neve, compras e abraços!
Dei por mim a pensar que um dia
até posso ir embora, deixar de ser emigrante. Ficar a trabalhar e a viver em
casa, feliz e junto aos meus. Mas estes dias, estas viagens, estes sentimentos
vão certamente marcar-me para sempre e até deixar saudades. Estes dias
fazem-nos crescer, fazem-nos dar valor ao que é nosso! Um dia certamente estas milhas vão acalmar. Mas nesse dia, vai haver um bocadinho de mim que se vai lembrar destes dias, da semana antes do Natal, dos voos com o pessoal de obra, a cantar e a ansiar a chegada a casa porque é Natal!

