Quem me conhece sabe que não ligo nenhuma à Páscoa. Nunca liguei. Para mim desde muito cedo a Páscoa resumia-se a oferecer o ramo à minha madrinha e depois ir com ela escolher a minha prenda. Normalmente as sapatilhas desse ano!! (Recordo especialmente umas Le Coq Sportif vermelhas lindasss). E esse era o programa dos dois fins de semana de Páscoa. Sempre adorei a minha madrinha e a ideia de dois fins de semana com ela e com os meus primos, era sempre coisa divertida. Mais tarde, a piada da Páscoa começou a ser as ferias, primeiro da escola, depois da faculdade e com estas a possibilidade de viajar. Mais tarde ainda, com o trabalho e salario (ainda que fraco!!) a ideia de uns dias fora era sempre a tentação. Pois, o conceito católico da Páscoa, esse, sempre me passou muito ao lado. Acho que parte desse "passar ao lado" também vem da minha mãe me acordar às oito da manha para receber o Compasso. Compasso este que nunca, mas repito-vos nunca, entrou em minha casa antes do meio dia! Mas e convencer a Sra. Dona minha mãe de tal facto? Impossível! Adiante...
As amêndoas ou os ovos da Páscoa também nunca foram a minha perdição. Nem tão pouco o folar ou o cabrito, animal este que nem como. Ou seja, a Páscoa nunca me disse muito e talvez por isso, desde que sou emigrante e que tenho de programar as minhas idas a Portugal, nunca foi data que fizesse questão. Até ter um afilhado! Quando o Pedro nasceu pensei com tristeza que não ia receber o ramo, tradição que gosto e que sempre que posso ainda cumpro. Pensei também que o meu afilhado não ia crescer com este ritual e tive pena. Claro está que continua a receber a sua prenda, mas nunca conhecerá a Páscoa como eu me lembro e tenho pena por isso. Este sentimento ficou ainda mais forte quando o Guilherme nasceu. Também ele apesar de ter madrinha, não saberá o que é ir comprar o ramo, escolher o mais bonito e entregar com todo o carinho que a madrinha lhe merece. E apesar da madrinha também lhe comprar o folar, também ele nao saberá o que é receber no dia certo, no dia de Páscoa. São estas algumas das nossas perdas aqui. São estas pequenas tradições, impossíveis de manter em Angola que me fazem agora ter pena. Que me fazem sentir que há fotografias que o meu filho ou o meu afilhado nunca terão. Há vidas que terão sempre sentimentos e momentos vividos com um continente no meio.