quarta-feira, 24 de julho de 2013

Pensar em férias




Este ano não vou ter ferias. É certo que estive vários meses sem trabalhar, mas quando falo em ferias, falo em destinos de lazer, paradisíacos ou não, citadinos ou de praia mas que permitam viver o “dolce fare niente”. Ou o fazer coisas de ferias que é praticamente a mesma coisa. Conhecer sítios novos, línguas novas, comidas novas para mim é sinonimo de descanso. Muitas vezes este descanso até pode significar cansaço físico mas a minha mente “sai”, “viaja”, conhece, logo tira férias. Gosto muito de viajar. É certamente um dos maiores prazeres que tenho. Durante muito tempo abdiquei de outros “luxos” materiais pata poder viajar e conhecer outras culturas. Não me custava deixar de sair ou mesmo deixar de comprar esta roupa ou aquela carteira, tendo em conta no que mês seguinte iria percorrer ruas longínquas e sentir aromas nunca antes sentidos. E normalmente quanto mais diferentes fossem estes aromas mais eu apreciava as viagens. Nos últimos anos, consequência da “evolução financeira” tenho conhecido sítios fabuloso e retornado a outros que me marcaram. Viajar é algo que nos agrada muito e no qual gostamos de investir. Li algures que “viajar é a única coisa que compramos que nos deixa mais ricos”. Grande verdade na minha opinião. Bem, mas este ano, vejo todos os meus amigos a irem de ferias, a colocarem maravilhosas fotos de praias e de sol no fb e eu aqui em Luanda. E neste cacimbo horroroso! Este ano se pudesse ter ferias tinha tantas ideias…Ai, tantas! A nível nacional ia dar um salto ao Lagos no Algarve. E queria muito passar uns dias no L'and Vineyards. Recomendaram-me vivamente e as fotos do site convencem mesmo os mais céticos.

Se viajasse uma semana, ficaria pelas redondezas europeias. Estava indecisa entre Cinque Terre em Itália (que ando há anos para conhecer), pela maravilhosa ilha da Sicília ou pela Sardenha. Gostava igualmente de dar um pulinho até às aguas de Formentera. Sítios perto, não excessivamente caros e atrativos para quem tem um filho de 9 meses.

No caso de (em sonhos) conseguir tirar duas semanas ia tentar conhecer as Sheychelles ou Maurícias. Ilhas que andam há dois anos a ficar para trás no mapa de destinos. Ilhas situadas no Indico e que por esse motivo dispensam mais apresentação no que diz respeito a praias, possuem igualmente um fabuloso património histórico e arquitetonico uma vez que faziam parte de históricas rotas de escravos e comércio de especiarias. 

Como não vou a lado nenhum a não ser à ilha de Luanda com a minha “Volta ao Mundo” sonhar ou com muita sorte à Maia em Setembro, vou deixar algumas sugestões a quem pode ir. Vou iniciar uma rubrica de destinos! Uns por mim visitados, outros por amigos e altamente recomendados. Na ausência de férias, ao menos falo delas!

terça-feira, 23 de julho de 2013

e um domingo bom

E na continuação de um sábado bom, tivemos um domingo bom. Um domingo preenchido com amigos/família. Um domingo que começou na cama até tarde (como quase todos os dias bons***), que continuou num almoço na praia e teve direito a uma presença especial - a Tia Lina que veio de Benguela!!!!!
Fomos passear à fortaleza, ver as obras novas e acima de tudo ver Luanda lá de cima. Acho que é um dos melhores sítios para se ver Luanda! E para terminar fomos passear na marginal com o Sebastião e andar de skate. Sim, e até o Gui andou de skate!
Sabem bem estes fins de semana cheios. O Gui não dorme a sesta à hora certa nem as horas que precisa, não come com a calma que devia nem em casa sossegado (ou seja, ainda come pior) .Mas passeia, brinca, vê amigos, vai à praia , faz coisas!
Estes dias assim fazem custar menos estar cá. Fazem lembrar fins de semana em casa. Daqueles fins de semana que cansam mais do que descansam. Mas que enchem a alma. E isso vê-se nas fotos!













segunda-feira, 22 de julho de 2013

Compras a longo prazo


A maior parte das pessoas com quem falo diz “ai que sorte…vives no verão o ano todo”, “..ai que maravilha..” , “ ..nem precisas de roupa quente…” etc e tal e afins.
É verdade sim senhora! Aliás quase verdade, porque agora estes três próximos meses são de “frio” em Angola. É o chamado cacimbo. Mas frio nem vê-lo! Pelo menos para nós, portugueses. As temperaturas rondam os 20/25 graus mas na maioria dos dias o sol não espreita, fazendo com a cidade fique triste e feia. E para nós adultos, a coisa resolve-se bem em termos de compras, pois segundo os estilistas, nos últimos anos podem-se usar camisolas de seda em pleno inverno. E vestidos finos! Tirando os casacões, a coleção, por exemplo de lojas como a Zara, muda muito pouco, permitindo-me comprar roupa de verão em pleno mês de Dezembro. Outros quinhentos são o facto de não saber quem usa esses vestidos no Porto nessa altura!
Mas, tendo em conta a descida da temperatura e o crescimento do Guilherme, que mais uma vez se traduziu mais em cms que em kilos (o moço teima em manter-se elegante), era preciso fazer compras para a criatura. Compras para os três meses que se avizinham e para o suposto frio. Umas sweat shirts são mais que suficientes para tal inverno. E no máximo dos máximos um casaquito de malha fino. Os calções mantêm-se na perna elegante! Mas, temos outro problema….Quando voltar a um país que se possa fazer compras, Portugal, que será daqui a três meses, as coleções serão de Inverno e eu precisarei novamente de reabastecer o guarda roupa de Verão do pequeno. E nessa altura as lojas estarão repletas de casacões e camisolas de lã que de nada me servem nesta terra. E só em Março de 2014 é que terei oportunidade de ver coleções de Verão outra vez. Ou seja, solução?? Andar nas lojas e pedir uns calções azuis tamanho 9, tamanho 12 e tamanho 18!  Comprar calções de praia tamanho 9, 12 e 18! T-shirts e até sapatos para mais 9 meses. É estranho e muitas vezes acabo por comprar a mesma peça em diferentes tamanhos. Comprar uma piscina e um baldinho que só utilizará em Setembro, uma boia para Outubro, e peixinhos para Novembro faz-me um bocado de confusão. Mas ou fazia isso ou ia ao Rio de Janeiro às compras entretanto!
Mas continua a ser vergonhoso a diferença na escolha de roupa de menino. Mesmo em lojas caras a comparação é incomparável! Escolher então roupa de batizado torna-se um filme quase de terror. Para meninas, temos autênticos vestidos de princesas, de contos de fadas. Coisas lindas e para todos os gostos. Temos opções clássicas de vestidos até aos pés (da mãe!!), passando por linhos fabulosos da Pili Carrera até aos acetinados incríveis da Nanos. Tudo com fitinhas e mantinhas e velinhas e demais “inhas” a condizer. Um verdadeiro atentado às carteiras. No que diz respeito aos rapazes temos duas opções: ou básicos bonitos, mas que tanto podiam ir ao seu batizado como ao batizado doutra criatura qualquer e serem meros convidados, ou uns fofos mais clássicos com lacinhos e rendas muito mais adequados a bebés pequeninos do que a bebés que já andam, mas que continuam a ser bebés e a merecer um outfit especial pois deverão ser as estrelas da festa! A juntar a esta falta de opção “lojista” temos um pai que não gosta de MUITA coisa! Ou seja esta tarefa ficou por concluir e ficará ao cargo da sua senhora madrinha!
Mas na ultima bagagem, que totalizou o fabuloso peso de 115kg (lembram-se do meu post sobre a coragem que é ser emigrante em Luanda e com filhos???...agora imaginem que tinha três!) veio roupa para a criatura vestir e deslumbrar Angola! Agora, até aos 12 meses e seguramente até aos 15!

sábado, 20 de julho de 2013

Um sábado bom


Hoje foi um dia bom! Eu e o Gui pusemos o sono em dia, juntinhos na minha cama, enquanto o pai saiu para trabalhar. Depois fomos às pizzas (as melhores de Luanda) com a tia Sofia. E a seguir fomos à feira de artesanato de Benfica. Ainda não tinha lá ido desde que regressei com o Gui. Passeamos entre os cestos e as mascaras e todos os vendedores nos fizeram festa. Vimos aneis de marfim e taças fabulosas. panos coloridos e estatuas de pau preto. E até macacos vimos! Voltamos para casa para dormir a sesta. E eu aproveitei e dormi também!! Foi um bom sábado! 



























sexta-feira, 19 de julho de 2013

Filhos e filhos a trabalhar em Luanda



É incrível como ter um filho ainda pode ser considerado um “impecilho” a nível profissional. Nunca tinha tido esta consciência e se me tivessem falado disto anteriormente não acreditaria. Também nunca tinha estado gravida e nunca tinha tido um filho. Mas esta triste realidade ainda é verdade. E se eu acredito que ainda seja verdadeira em Portugal, muito mais a será aqui em Luanda. Quando cá vivemos não queremos ter os filhos cá. Refiro-me ao parto, porque cria-los cá, mesmo que seja difícil e no início uma ideia que não agrada a nenhuma mãe, a Vida (sim essa que comete erros) obriga-nos a aceitar (eu durante anos disse que quando tivesse filhos ia embora..E cá estou!) A Sraª Vida e a Srª Crise que nos últimos anos obrigaram os portugueses a relembrar histórias de “malas de cartão”. E não os querer ter cá, implica, pelas regras da aviação internacional que dois meses antes do dito, voemos para as nossa querida terrinha, para junto do nosso médico de confiança para as “ditas dores”.
Estar gravida cá implica igualmente um jogo muito grande de cintura com o acompanhamento médico. Ou somos seguidas cá, e temos de ter fé, muita fé, porque confiança é muito pouca, ou voamos amiúde a Portugal e para isso precisamos duma gigantesca compreensão de quem é nosso patrão, pois isso implica dias de férias. Passando a questão de dias para consultas e de dois meses antes do parto (já estamos aqui com praticamente dois meses e meio de férias) na maior parte das vezes aceite pelas empresas, temos os habituais dias de licença seguintes ao nascimento, que segundo a lei portuguesa são possíveis até 150 e segundo a lei angolana serão 120 dias somente. Logo, ao fim desses 120dias há que viajar com as criaturas e vir. E trazer um bebe com três mesitos para cá não é fácil. Nada fácil mesmo. E deixar um bebe com três meses com uma empregada/baba também não é mesmo nada fácil. Muitas mães e mesmo mães que eu conheço foram trabalhar muito mais cedo que os 120 dias, mas deixaram as crianças com alguém que não suscitava qualquer duvida. È difícil na mesma, eu sei, mas no fundo sabemos quem lá esta, quem cuida, quem trata e como trata, o que nos acalma o coração. Por isso esta história é diferente. Não pretende ser mais fácil nem difícil, pretende apenas ser diferente. Aqui nestes pais, para quem vem, são 120 dias mas ao fim destes não há avós para deixar as ditas criaturas. Há babas, há empregadas, mais ou menos certas, mais ou menos confiáveis. Mas empregadas!
Passando isto tudo temos a parte de criar um filho e trabalhar em Luanda. Porque a maioria de nós vem para trabalhar. E surpresa…Continua a ser difícil. As babas não querem sair tarde e é impossível chegar a casa cedo. Mesmo que o patrão permita o trânsito não facilita. E temos de começar cedo a trabalhar. Sair de casa no máximo às 7h. (já não falando em quem como eu vive em Luanda sul, em que sair às 7h será tarde). Ultrapassando isto, ainda me consigo deparar com profissionais (e PORTUGUESES!) que numa entrevista me dizem….”ter um filho é um problema cá, não? Onde o deixa? Como pretende fazer” E termos a consciência que isso é um ponto negativo no seu perfil. Os anos de experiência, os anos desta terra acabam por contar menos do que ter um filho! Não, não é um problema! Não é, não deve e não pode ser. Porque as mães trabalham na mesma. E há pais. E há empregadas! E há babás! E infantários! E há muito coisa porque não há avós. Mas há também empregadas dos amigos. E amigos. Muitos amigos. E amigos mais disponíveis para ajudar porque percebem que não há família e há muitas dificuldades nesta terra. E porque temos de trabalhar mas ter o coração descansado.
Mas felizmente também há pessoas que nos dizem “também tenho filhos e sei o que é isso” ou “ nem que o traga…” ou “ isso nunca seria um impedimento” ou “ a minha mulher também é arquiteta e mãe”. Porque também há entrevistas que nos relembram que mães também são mulheres e mulheres profissionais. Que é difícil mas possível. Mas que tem de ser igual a ser pai e profissional. Porque não pode haver diferenças. E há entrevistas que nos fazem acreditar que há profissionais justos e corretos (só é pena é serem estrangeiros!) Porque há entrevistas/conversas que nos fazem acreditar que há “patrões” que têm de mudar mentalidades e urgentemente, porque as condições, os direitos dos trabalhadores/as não podem regredir porque há crise minha gente!!!!!!!!! Não podemos andar para trás vinte ou trinta anos e prejudicar mulheres que são mãe.
E não..Ter o Guilherme não é um problema. É uma alegria grande todos os dias. Mesmo que eu venha dar aulas e tenha de conciliar duas empregradas! E tenha de ligar dez vezes por dia para casa. E tenha de fazer tabelas para saber se ele comeu o iogurte ou a sopa. É sempre uma alegria!

Parabéns Madiba*


Se há figura internacional que gostava de conhecer era o Nelson Mandela. Este grande senhor faz hoje 95 anos e infelizmente a sua saúde já teve melhores dias. Neste momento Mandela encontra-se infelizmente (segundo fontes jornalísticas) praticamente vegetal (as fontes politicas continuam a desmentir).

Africa do Sul passa por momentos de tristeza perante a sua doença e até de apreensão. Manter-se-á a calma entre brancos e negros? Manter-se-á a ordem? Mas também será justo um Homem destes viver assim? Um homem cuja palavra foi sempre a sua força viver “calado”? O homem tribal que se formou advogado, tornou-se presidente e mudou Africa…

Mandela dedicou a sua vida à luta pela igualdade. Mais precisamente dedicou 67 anos da sua vida à luta pela igualdade social. À luta pelo fim do aparthaid. À luta pela liberdade de um país que pode ser um dia fantástico. Que tem tudo para ser maravilhoso mas que neste sofre de um grave problema de racismo. Um gravíssimo problema mascarado pelo aparente fim do aparthaid. Aparente!

Em Março de 2011 estive na cela que albergou 18 anos (dos 27 que esteve preso) Nelson Mandela na Robben Island. Impressionantemente pequena para um homem “taão grande”. Ouvir da boca de colegas de cadeia relatos daqueles tempos é verdadeiramente incrível e faz-nos sentir pequenos perante tamanha capacidade de luta, de perdão, de compreensão, de inteligência. Dessas grandes figuras que só ouvimos falar, de que nos são distantes esta é sem dúvida a minha figura. A que eu adorava conhecer. A que eu admiro! Admiro muito! E a quem eu desejo muitos parabéns*

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Boa news vs tecnologia




A vida nem sempre tem razão e demasiadas vezes comete erros inultrapassáveis. Mas também tem surpresas boas com telefonemas que alegram sábados, ainda que sejam sábados de cacimbo tristes por perdas incompreensíveis.

Telefonemas que nos dão noticias boas que nos fazem recordar que na nossa terra temos grandes amigos com vidas felizes. Que apesar da crise seguem as suas vidas, ainda que com algum esforço, mas com vitórias e conquistas, proporcionando também a quem esta cá, longe, momentos felizes . 

São muitas vezes estes telefonemas que me fazem “voltar lá”. Estar por breves minutos mais perto dos meus. Que fazem com que desapareçam 6mil km. Que um continente inteiro perca importância perante uma boa conversa e que consigamos fazer de conta que estamos bem rentinho aos seus corações.

Haja tecnologia da boa!!!!!!!!!!!

Luanda

Espera-se que este dia e todos os outros!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A vida tem sempre razão?


Sábado na minha hora do "vegetanço", estava aqui no sofá a ver tv, a fazer zapping quando me deparei com o programa Alta Definição em que a entrevistada era a atriz Joana Seixas. Foi uma agradável surpresa dentro da mediocridade com que os canais portugueses nos têm brindado ultimamente. E a esta hora ainda eu não tinha tido o prazer de ver o JCB a chamar bicha ao touro! Adiante..
Parei então na Sic a ouvir falar da vida da Joana Seixas, porque até é uma atriz que me agrada. E eis que o Daniel Oliveira pergunta-lhe se a "vida tem sempre razão?". À parte da resposta que ela deu, eu pensei na minha. E não, a Vida não tem sempre razão. Aliás a Vida engana-se mesmo muitas vezes. A vida comete muitos erros. E pior que isso é que muitos desses erros não têm volta.
Este fim de semana em particular acho que a Vida errou muito. Durante esta semana, morreu uma amiga dumas grandes amigas minhas, com apenas 32 anos. E assim...de repente. Com 32 anos e uma vida pela frente. E um sonho para alcançar ainda no inicio. Não era pessoa que conhecesse bem, mas isto não me impede de achar que a Vida errou! Errou como erra tantas e tantas vezes. E nós não podemos fazer nada. Não podemos obriga-la a voltar atrás, a corrigir o seu erro, a pedir desculpa. Porque a Vida Nunca pede desculpa. A única coisa que podemos fazer é "ignorar o erro" e andar. Andar para a frente porque a Vida também não para e um dia o erro será em nós. Porque é difícil enganar a Vida..e o tempo..Por isso temos de avançar antes que o erro chegue e aproveitar cada dia, cada sorriso, cada lágrima, cada canção, cada momento. Porque eu quero que o meu erro só chegue quando eu tiver mil memorias, mil canções para recordar, mil momentos para levar....

e vocês...sigam o sonho que iniciaram as três*

domingo, 14 de julho de 2013

Coisas que me tiram do sério




Estes primeiros dias de aulas têm sido recheados de emoções. Emoções boas e outras que nem tanto. Se há coisinha que me tira do sério nesta terra é a falta de respeito que existe no trânsito. Este pessoal não sabe o que é respeito entre veículos e motoristas. E se no início, quando para cá vim, dava passagem a tudo e a todos, principalmente aos angolanos (sim, é uma questão de medo de confusão), hoje em dia a coisa não é bem assim. Não dou passagem se não tiver de dar. Se se meterem pelas bermas ou à “fangios” não dou passagem. E se forem brancos então ainda menos. Se há alturas em que ainda pondero (no caso por exemplo de militares...sim dou!) no caso de serem brancos não hesito mesmo.
Acho uma vergonha que os portugueses que para cá vieram trabalhar ao fim de meia dúzia de semanas já conduzam sem qualquer tipo de regras. Gostava muito de saber se quando chegam a Portugal fazem as mesmas asneiras vergonhosas. É exactamente isso que lhes pergunto muitas vezes aos gritos de dentro do meu carro. Embora eles não me respondam. Já ouvi respostas de pessoas próximas do género  “em Roma sê romano” mas não me vejam com historias. Agora vamos ficar estúpidos a conduzir? Vamos ultrapassar pela direita? Vamos andar nas bermas? Vamos andar em sentido contrario e vamos fazer 5filas numa rua de dois sentidos? Haja santinha paciência porque santa já não chega. Porque carga de agua acha que uma pessoa que tem o direito de passar à frente de todos aqueles que estão numa fila há horas? O que leva uma pessoa ao volante a achar que é mais inteligente que os outros ou que merece passar enquanto os outros permanecem parados? Não entendo! E se posso tentar entender quem sempre conduziu assim e não aprendeu doutra maneira, não consigo compreender quem em Portugal conduz duma forma e aqui doutra. Para esses não há paciência. Isso chama-se estupidez. E ficooooooooooooo tola com tanta!
Depois por outro lado há coisas curiosas que me apercebo nas aulas. Estas novas turmas, muito maiores (a turma da noite tem 65 alunos) têm originado novas experiências e novas descobertas sobre dar aulas, sobre alunos e particularmente sobre alunos angolanos. Uma delas é o respeito que os alunos têm pelo “delegado de turma”. Normalmente são alunos mais velhos, elegidos pela turma e muito respeitados por esta. A sua palavra é ordem. É lei.
Acontecem situações engraçadas muito engraçadas frutos desta hierarquia. Ainda hoje, um aluno entrou na aula de manha de chapéu. E o Sr Manuel, prontamente(sim, porque é um aluno realmente mais velho que eu) olha e diz com uma calma impressionante “ colega, está sol cá dentro?”. E esse aluno, um puto novo, automaticamente tirou o chapéu dizendo “ peço desculpa!”. O mais velho fala e o mais novo obedece sem questionar. Quando a turma começa a falar por exemplo, mesmo antes de eu intervir, o Sr. Manuel manda-os calor. E eles calam-se (bem, a maioria das vezes!). É engraçado ver como certos hábitos ainda estão tão presentes na cultura angolana. Engraçado e quase contraditório. Este exemplo seria praticamente impossível de acontecer em turmas portuguesas. Nos, e eu falo também por mim enquanto fui aluno, nunca admitiria uma ordem de um colega apenas por este ser mais velho. Se há situações que me espantam pela negativa, como a falta de regras de transito com que me deparo diariamente, ou a falta de limpeza das ruas pois tudo se atira para o chão, há outras como esta que me fazem relembrar valores muitas vezes esquecidos em Portugal. O respeito pelos mais velhos é uma coisa que aqui ainda conta muito.
Ser “mais velho” aqui é num posto. É quase que um nome e não um adjectivo. O próprio Presidente é apelidado muitas vezes de “o mais velho” como se isso representasse um conhecimento, um acumular de sabedoria. Ele é O mais velho de todos. O que sabe mais. Ou seja, respeitam o delegado, acatam o que ele diz, mas depois afiam os lápis para o chão, ou não entendem o que são filas. Haja contradição nesta terra de ultramar. E como se diz na minha: “dão uma no cravo e outra na ferradura”.