É incrível como ter um filho ainda pode ser considerado um “impecilho” a nível profissional. Nunca tinha tido esta consciência e se me tivessem falado disto anteriormente não acreditaria. Também nunca tinha estado gravida e nunca tinha tido um filho. Mas esta triste realidade ainda é verdade. E se eu acredito que ainda seja verdadeira em Portugal, muito mais a será aqui em Luanda. Quando cá vivemos não queremos ter os filhos cá. Refiro-me ao parto, porque cria-los cá, mesmo que seja difícil e no início uma ideia que não agrada a nenhuma mãe, a Vida (sim essa que comete erros) obriga-nos a aceitar (eu durante anos disse que quando tivesse filhos ia embora..E cá estou!) A Sraª Vida e a Srª Crise que nos últimos anos obrigaram os portugueses a relembrar histórias de “malas de cartão”. E não os querer ter cá, implica, pelas regras da aviação internacional que dois meses antes do dito, voemos para as nossa querida terrinha, para junto do nosso médico de confiança para as “ditas dores”.
Estar gravida cá implica igualmente um jogo muito grande de cintura com o acompanhamento médico. Ou somos seguidas cá, e temos de ter fé, muita fé, porque confiança é muito pouca, ou voamos amiúde a Portugal e para isso precisamos duma gigantesca compreensão de quem é nosso patrão, pois isso implica dias de férias. Passando a questão de dias para consultas e de dois meses antes do parto (já estamos aqui com praticamente dois meses e meio de férias) na maior parte das vezes aceite pelas empresas, temos os habituais dias de licença seguintes ao nascimento, que segundo a lei portuguesa são possíveis até 150 e segundo a lei angolana serão 120 dias somente. Logo, ao fim desses 120dias há que viajar com as criaturas e vir. E trazer um bebe com três mesitos para cá não é fácil. Nada fácil mesmo. E deixar um bebe com três meses com uma empregada/baba também não é mesmo nada fácil. Muitas mães e mesmo mães que eu conheço foram trabalhar muito mais cedo que os 120 dias, mas deixaram as crianças com alguém que não suscitava qualquer duvida. È difícil na mesma, eu sei, mas no fundo sabemos quem lá esta, quem cuida, quem trata e como trata, o que nos acalma o coração. Por isso esta história é diferente. Não pretende ser mais fácil nem difícil, pretende apenas ser diferente. Aqui nestes pais, para quem vem, são 120 dias mas ao fim destes não há avós para deixar as ditas criaturas. Há babas, há empregadas, mais ou menos certas, mais ou menos confiáveis. Mas empregadas!
Passando isto tudo temos a parte de criar um filho e trabalhar em Luanda. Porque a maioria de nós vem para trabalhar. E surpresa…Continua a ser difícil. As babas não querem sair tarde e é impossível chegar a casa cedo. Mesmo que o patrão permita o trânsito não facilita. E temos de começar cedo a trabalhar. Sair de casa no máximo às 7h. (já não falando em quem como eu vive em Luanda sul, em que sair às 7h será tarde). Ultrapassando isto, ainda me consigo deparar com profissionais (e PORTUGUESES!) que numa entrevista me dizem….”ter um filho é um problema cá, não? Onde o deixa? Como pretende fazer” E termos a consciência que isso é um ponto negativo no seu perfil. Os anos de experiência, os anos desta terra acabam por contar menos do que ter um filho! Não, não é um problema! Não é, não deve e não pode ser. Porque as mães trabalham na mesma. E há pais. E há empregadas! E há babás! E infantários! E há muito coisa porque não há avós. Mas há também empregadas dos amigos. E amigos. Muitos amigos. E amigos mais disponíveis para ajudar porque percebem que não há família e há muitas dificuldades nesta terra. E porque temos de trabalhar mas ter o coração descansado.
Mas felizmente também há pessoas que nos dizem “também tenho filhos e sei o que é isso” ou “ nem que o traga…” ou “ isso nunca seria um impedimento” ou “ a minha mulher também é arquiteta e mãe”. Porque também há entrevistas que nos relembram que mães também são mulheres e mulheres profissionais. Que é difícil mas possível. Mas que tem de ser igual a ser pai e profissional. Porque não pode haver diferenças. E há entrevistas que nos fazem acreditar que há profissionais justos e corretos (só é pena é serem estrangeiros!) Porque há entrevistas/conversas que nos fazem acreditar que há “patrões” que têm de mudar mentalidades e urgentemente, porque as condições, os direitos dos trabalhadores/as não podem regredir porque há crise minha gente!!!!!!!!! Não podemos andar para trás vinte ou trinta anos e prejudicar mulheres que são mãe.
E não..Ter o Guilherme não é um problema. É uma alegria grande todos os dias. Mesmo que eu venha dar aulas e tenha de conciliar duas empregradas! E tenha de ligar dez vezes por dia para casa. E tenha de fazer tabelas para saber se ele comeu o iogurte ou a sopa. É sempre uma alegria!


