sexta-feira, 19 de julho de 2013

Filhos e filhos a trabalhar em Luanda



É incrível como ter um filho ainda pode ser considerado um “impecilho” a nível profissional. Nunca tinha tido esta consciência e se me tivessem falado disto anteriormente não acreditaria. Também nunca tinha estado gravida e nunca tinha tido um filho. Mas esta triste realidade ainda é verdade. E se eu acredito que ainda seja verdadeira em Portugal, muito mais a será aqui em Luanda. Quando cá vivemos não queremos ter os filhos cá. Refiro-me ao parto, porque cria-los cá, mesmo que seja difícil e no início uma ideia que não agrada a nenhuma mãe, a Vida (sim essa que comete erros) obriga-nos a aceitar (eu durante anos disse que quando tivesse filhos ia embora..E cá estou!) A Sraª Vida e a Srª Crise que nos últimos anos obrigaram os portugueses a relembrar histórias de “malas de cartão”. E não os querer ter cá, implica, pelas regras da aviação internacional que dois meses antes do dito, voemos para as nossa querida terrinha, para junto do nosso médico de confiança para as “ditas dores”.
Estar gravida cá implica igualmente um jogo muito grande de cintura com o acompanhamento médico. Ou somos seguidas cá, e temos de ter fé, muita fé, porque confiança é muito pouca, ou voamos amiúde a Portugal e para isso precisamos duma gigantesca compreensão de quem é nosso patrão, pois isso implica dias de férias. Passando a questão de dias para consultas e de dois meses antes do parto (já estamos aqui com praticamente dois meses e meio de férias) na maior parte das vezes aceite pelas empresas, temos os habituais dias de licença seguintes ao nascimento, que segundo a lei portuguesa são possíveis até 150 e segundo a lei angolana serão 120 dias somente. Logo, ao fim desses 120dias há que viajar com as criaturas e vir. E trazer um bebe com três mesitos para cá não é fácil. Nada fácil mesmo. E deixar um bebe com três meses com uma empregada/baba também não é mesmo nada fácil. Muitas mães e mesmo mães que eu conheço foram trabalhar muito mais cedo que os 120 dias, mas deixaram as crianças com alguém que não suscitava qualquer duvida. È difícil na mesma, eu sei, mas no fundo sabemos quem lá esta, quem cuida, quem trata e como trata, o que nos acalma o coração. Por isso esta história é diferente. Não pretende ser mais fácil nem difícil, pretende apenas ser diferente. Aqui nestes pais, para quem vem, são 120 dias mas ao fim destes não há avós para deixar as ditas criaturas. Há babas, há empregadas, mais ou menos certas, mais ou menos confiáveis. Mas empregadas!
Passando isto tudo temos a parte de criar um filho e trabalhar em Luanda. Porque a maioria de nós vem para trabalhar. E surpresa…Continua a ser difícil. As babas não querem sair tarde e é impossível chegar a casa cedo. Mesmo que o patrão permita o trânsito não facilita. E temos de começar cedo a trabalhar. Sair de casa no máximo às 7h. (já não falando em quem como eu vive em Luanda sul, em que sair às 7h será tarde). Ultrapassando isto, ainda me consigo deparar com profissionais (e PORTUGUESES!) que numa entrevista me dizem….”ter um filho é um problema cá, não? Onde o deixa? Como pretende fazer” E termos a consciência que isso é um ponto negativo no seu perfil. Os anos de experiência, os anos desta terra acabam por contar menos do que ter um filho! Não, não é um problema! Não é, não deve e não pode ser. Porque as mães trabalham na mesma. E há pais. E há empregadas! E há babás! E infantários! E há muito coisa porque não há avós. Mas há também empregadas dos amigos. E amigos. Muitos amigos. E amigos mais disponíveis para ajudar porque percebem que não há família e há muitas dificuldades nesta terra. E porque temos de trabalhar mas ter o coração descansado.
Mas felizmente também há pessoas que nos dizem “também tenho filhos e sei o que é isso” ou “ nem que o traga…” ou “ isso nunca seria um impedimento” ou “ a minha mulher também é arquiteta e mãe”. Porque também há entrevistas que nos relembram que mães também são mulheres e mulheres profissionais. Que é difícil mas possível. Mas que tem de ser igual a ser pai e profissional. Porque não pode haver diferenças. E há entrevistas que nos fazem acreditar que há profissionais justos e corretos (só é pena é serem estrangeiros!) Porque há entrevistas/conversas que nos fazem acreditar que há “patrões” que têm de mudar mentalidades e urgentemente, porque as condições, os direitos dos trabalhadores/as não podem regredir porque há crise minha gente!!!!!!!!! Não podemos andar para trás vinte ou trinta anos e prejudicar mulheres que são mãe.
E não..Ter o Guilherme não é um problema. É uma alegria grande todos os dias. Mesmo que eu venha dar aulas e tenha de conciliar duas empregradas! E tenha de ligar dez vezes por dia para casa. E tenha de fazer tabelas para saber se ele comeu o iogurte ou a sopa. É sempre uma alegria!

Parabéns Madiba*


Se há figura internacional que gostava de conhecer era o Nelson Mandela. Este grande senhor faz hoje 95 anos e infelizmente a sua saúde já teve melhores dias. Neste momento Mandela encontra-se infelizmente (segundo fontes jornalísticas) praticamente vegetal (as fontes politicas continuam a desmentir).

Africa do Sul passa por momentos de tristeza perante a sua doença e até de apreensão. Manter-se-á a calma entre brancos e negros? Manter-se-á a ordem? Mas também será justo um Homem destes viver assim? Um homem cuja palavra foi sempre a sua força viver “calado”? O homem tribal que se formou advogado, tornou-se presidente e mudou Africa…

Mandela dedicou a sua vida à luta pela igualdade. Mais precisamente dedicou 67 anos da sua vida à luta pela igualdade social. À luta pelo fim do aparthaid. À luta pela liberdade de um país que pode ser um dia fantástico. Que tem tudo para ser maravilhoso mas que neste sofre de um grave problema de racismo. Um gravíssimo problema mascarado pelo aparente fim do aparthaid. Aparente!

Em Março de 2011 estive na cela que albergou 18 anos (dos 27 que esteve preso) Nelson Mandela na Robben Island. Impressionantemente pequena para um homem “taão grande”. Ouvir da boca de colegas de cadeia relatos daqueles tempos é verdadeiramente incrível e faz-nos sentir pequenos perante tamanha capacidade de luta, de perdão, de compreensão, de inteligência. Dessas grandes figuras que só ouvimos falar, de que nos são distantes esta é sem dúvida a minha figura. A que eu adorava conhecer. A que eu admiro! Admiro muito! E a quem eu desejo muitos parabéns*

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Boa news vs tecnologia




A vida nem sempre tem razão e demasiadas vezes comete erros inultrapassáveis. Mas também tem surpresas boas com telefonemas que alegram sábados, ainda que sejam sábados de cacimbo tristes por perdas incompreensíveis.

Telefonemas que nos dão noticias boas que nos fazem recordar que na nossa terra temos grandes amigos com vidas felizes. Que apesar da crise seguem as suas vidas, ainda que com algum esforço, mas com vitórias e conquistas, proporcionando também a quem esta cá, longe, momentos felizes . 

São muitas vezes estes telefonemas que me fazem “voltar lá”. Estar por breves minutos mais perto dos meus. Que fazem com que desapareçam 6mil km. Que um continente inteiro perca importância perante uma boa conversa e que consigamos fazer de conta que estamos bem rentinho aos seus corações.

Haja tecnologia da boa!!!!!!!!!!!

Luanda

Espera-se que este dia e todos os outros!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A vida tem sempre razão?


Sábado na minha hora do "vegetanço", estava aqui no sofá a ver tv, a fazer zapping quando me deparei com o programa Alta Definição em que a entrevistada era a atriz Joana Seixas. Foi uma agradável surpresa dentro da mediocridade com que os canais portugueses nos têm brindado ultimamente. E a esta hora ainda eu não tinha tido o prazer de ver o JCB a chamar bicha ao touro! Adiante..
Parei então na Sic a ouvir falar da vida da Joana Seixas, porque até é uma atriz que me agrada. E eis que o Daniel Oliveira pergunta-lhe se a "vida tem sempre razão?". À parte da resposta que ela deu, eu pensei na minha. E não, a Vida não tem sempre razão. Aliás a Vida engana-se mesmo muitas vezes. A vida comete muitos erros. E pior que isso é que muitos desses erros não têm volta.
Este fim de semana em particular acho que a Vida errou muito. Durante esta semana, morreu uma amiga dumas grandes amigas minhas, com apenas 32 anos. E assim...de repente. Com 32 anos e uma vida pela frente. E um sonho para alcançar ainda no inicio. Não era pessoa que conhecesse bem, mas isto não me impede de achar que a Vida errou! Errou como erra tantas e tantas vezes. E nós não podemos fazer nada. Não podemos obriga-la a voltar atrás, a corrigir o seu erro, a pedir desculpa. Porque a Vida Nunca pede desculpa. A única coisa que podemos fazer é "ignorar o erro" e andar. Andar para a frente porque a Vida também não para e um dia o erro será em nós. Porque é difícil enganar a Vida..e o tempo..Por isso temos de avançar antes que o erro chegue e aproveitar cada dia, cada sorriso, cada lágrima, cada canção, cada momento. Porque eu quero que o meu erro só chegue quando eu tiver mil memorias, mil canções para recordar, mil momentos para levar....

e vocês...sigam o sonho que iniciaram as três*

domingo, 14 de julho de 2013

Coisas que me tiram do sério




Estes primeiros dias de aulas têm sido recheados de emoções. Emoções boas e outras que nem tanto. Se há coisinha que me tira do sério nesta terra é a falta de respeito que existe no trânsito. Este pessoal não sabe o que é respeito entre veículos e motoristas. E se no início, quando para cá vim, dava passagem a tudo e a todos, principalmente aos angolanos (sim, é uma questão de medo de confusão), hoje em dia a coisa não é bem assim. Não dou passagem se não tiver de dar. Se se meterem pelas bermas ou à “fangios” não dou passagem. E se forem brancos então ainda menos. Se há alturas em que ainda pondero (no caso por exemplo de militares...sim dou!) no caso de serem brancos não hesito mesmo.
Acho uma vergonha que os portugueses que para cá vieram trabalhar ao fim de meia dúzia de semanas já conduzam sem qualquer tipo de regras. Gostava muito de saber se quando chegam a Portugal fazem as mesmas asneiras vergonhosas. É exactamente isso que lhes pergunto muitas vezes aos gritos de dentro do meu carro. Embora eles não me respondam. Já ouvi respostas de pessoas próximas do género  “em Roma sê romano” mas não me vejam com historias. Agora vamos ficar estúpidos a conduzir? Vamos ultrapassar pela direita? Vamos andar nas bermas? Vamos andar em sentido contrario e vamos fazer 5filas numa rua de dois sentidos? Haja santinha paciência porque santa já não chega. Porque carga de agua acha que uma pessoa que tem o direito de passar à frente de todos aqueles que estão numa fila há horas? O que leva uma pessoa ao volante a achar que é mais inteligente que os outros ou que merece passar enquanto os outros permanecem parados? Não entendo! E se posso tentar entender quem sempre conduziu assim e não aprendeu doutra maneira, não consigo compreender quem em Portugal conduz duma forma e aqui doutra. Para esses não há paciência. Isso chama-se estupidez. E ficooooooooooooo tola com tanta!
Depois por outro lado há coisas curiosas que me apercebo nas aulas. Estas novas turmas, muito maiores (a turma da noite tem 65 alunos) têm originado novas experiências e novas descobertas sobre dar aulas, sobre alunos e particularmente sobre alunos angolanos. Uma delas é o respeito que os alunos têm pelo “delegado de turma”. Normalmente são alunos mais velhos, elegidos pela turma e muito respeitados por esta. A sua palavra é ordem. É lei.
Acontecem situações engraçadas muito engraçadas frutos desta hierarquia. Ainda hoje, um aluno entrou na aula de manha de chapéu. E o Sr Manuel, prontamente(sim, porque é um aluno realmente mais velho que eu) olha e diz com uma calma impressionante “ colega, está sol cá dentro?”. E esse aluno, um puto novo, automaticamente tirou o chapéu dizendo “ peço desculpa!”. O mais velho fala e o mais novo obedece sem questionar. Quando a turma começa a falar por exemplo, mesmo antes de eu intervir, o Sr. Manuel manda-os calor. E eles calam-se (bem, a maioria das vezes!). É engraçado ver como certos hábitos ainda estão tão presentes na cultura angolana. Engraçado e quase contraditório. Este exemplo seria praticamente impossível de acontecer em turmas portuguesas. Nos, e eu falo também por mim enquanto fui aluno, nunca admitiria uma ordem de um colega apenas por este ser mais velho. Se há situações que me espantam pela negativa, como a falta de regras de transito com que me deparo diariamente, ou a falta de limpeza das ruas pois tudo se atira para o chão, há outras como esta que me fazem relembrar valores muitas vezes esquecidos em Portugal. O respeito pelos mais velhos é uma coisa que aqui ainda conta muito.
Ser “mais velho” aqui é num posto. É quase que um nome e não um adjectivo. O próprio Presidente é apelidado muitas vezes de “o mais velho” como se isso representasse um conhecimento, um acumular de sabedoria. Ele é O mais velho de todos. O que sabe mais. Ou seja, respeitam o delegado, acatam o que ele diz, mas depois afiam os lápis para o chão, ou não entendem o que são filas. Haja contradição nesta terra de ultramar. E como se diz na minha: “dão uma no cravo e outra na ferradura”.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Saias

 
Quando se fala em tutus versão saia, fala-se disto por exemplo! 
Não quero que fiquem duvidas*

sábado, 6 de julho de 2013

Verão na minha terra

Chegou o verão à minha terra. E chegou em força. Abro o fb e vejo os posts sobre praias sem fim, noitadas quentes e um fim de semana que promete ser forte. E eu fechada em casa em Luanda. E com saudades. E com mais saudades ainda porque adoro o verão no meu pais. Adoro os dias gigantes. Adoro ver o por-do -sol na minha varanda fabulosa nas minhas espreguiçadeiras. Nesta altura ainda custa mais. Custa ainda mais. Julho e Agosto em Angola são para esquecer. De dia não há praia, ou pelo menos praia em condições e portantosssss não há nadinha de jeito para fazer. E em Portugal tudo está ao rubro. É amigas girissimas em casamentos, é amigas em férias no sul, é fotos de esplanadas cheias, é praia, é mar, é sangria, é calor. É o Porto ao rubro e eu em Luanda a ver tv. E tv reles!  É também nesta altura que me apetece bater em quem se queixa do calor!!!!!!!!!!!

Bom verão Porto *

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sexo e a Cidade


Adoro o "Sexo e a Cidade". Mas adoro mesmo! Sempre adorei e acho que agora ainda gosto mais. Ver os dois episódios seguidos na Foxlife, no sossego do meu sofá, com pai e filho a dormir é o meu momento! Só meu! Sempre tive relações estranhas com series televisivas. Relações um tanto ou quanto obsessivas quase. Quando gosto, gosto mesmo, e não me importo de dormir menos horas ou mesmo de deixar de ir jantar fora para ver um certo episódio. Quem me conhece há uns anos sabe bem a "doença" (porque quando chega a isto não pode ter outro nome) que era a minha relação com o "Serviço de Urgência" à sexta-feira à noite. Adiante.
Quando comecei a escrever este post acabava de ver um episódio que tratava uma desilusão amorosa. A Carrie era deixada por uma mulher mais nova, uma modelo gira e magra e alta e fabulosa e o Mr. Big fica noivo dela. E quer ser amigo da Carrie! E as quatro amigas juntam-se a beber uns copos, a tentar perceber os porquês e a animar a Carrie. Este resumo podia ser o resumo de alguns jantares da minha vida. Não especificamente com o tema de alguém "ser trocada " mas também mas com o tema amigas. Amigas que se juntam, que jantam, que conversam, que dizem algumas muitas e que se riem muito. Jantares de baboseiras de gajas que jamais poderão ser reveladas. Esta serie retrata o tema da amizade entre mulheres duma forma fabulosa. Amigas, mulheres, que bebem, que saem, que batalham pelo sucesso, que falham, que procuram um amor (verdadeiro, louco, inconveninente...quem não procura ou procurou?) e que vivem em NY, a cereja no topo do bolo. Como poderiam estes episódios não ser um mito? Já houve alturas da minha vida que não tinha namorado e muitas das minhas noites podiam tentar ser parecidas com estas, à parte de serem no Porto e nem eu nem nenhuma das minhas amigas usar Manolos! Entretanto a vida foi passando e as noites e os jantares passaram a ser diferentes. Nem melhores nem piores, apenas diferentes. Evolução natural da vida e dos episódios. 
Os episódios de hoje foram de ir às lágrimas. A Carrie tinha-se mudado ontem para Paris, para viver com um escultor russo por quem entretanto se tinha apaixonado. E duplo episódio retrata a Carrie, sozinha, enquanto o russo está na vidinha dele, na cidade dos seus sonhos, Paris. Mas infeliz! Perdida, sozinha, triste. Faltam-lhe as amigas, "a treta", a sua vida, a sua cidade. Sim ...e o seu Big. Claro está que nem por estar infeliz ela deixa de estar absolutamente fabulosa com aquelas saias a imitar tutus gigantes que na minha ideia só ficariam bem a alguém gigante. Mas não. A ela ficam! E claro está que à boa maneira da Carrie, no segundo dia se endivida por longos anos da Dior. Curar infelicidades em Paris e na Dior é outro nivel. Em Luanda por exemplo, onde curaria eu uma saudade? A comprar bananas certamente! E claro está que tudo acaba bem porque o Big a vai buscar porque as amigas o mandam e voltam juntos para a cidade que nunca dorme e que lhes pertence. Estes episódios falam de amizades, amizades longas, verdadeiras, quase eternas. E de amores loucos, capazes de atravessarem oceanos. E de vidas que eram duma maneira e evoluem, mas que mantêm ligações inabalaveis. Lembram-me bons tempos passados e tempos igualmente bons de agora! Fazem-me pensar que quem um dia foi companheira de noite e de copos, hoje é madrinha do meu filho. Evolução natural? Acho que sim. Agrada-me pensar que sim. Mas são tempos que deixam saudade.
Quem viu a serie desde o inicio lembra-se das quatro amigas em NY cujas únicas preocupações eram roupas, shoes e gajos. Hoje a serie retrata uma Samantha (que continua doida por sexo) sobrevivente dum cancro da mama, uma Miranda casada, com um filho que vive com uma sogra doente, a Charlotte que não consegue engravidar. A serie evoluiu como a nossa vida evoluiu também. Também já houve casos de cancro, de maternidades, de episódios mais ou menos bons da vida. E até já houve NY nas nossas vidas. Mas a vida mesmo é em Luanda, a três, em família e com saudades do lado de lá!

Mas a verdadeira questão que não me deixa dormir é: será que algum dia irei relembrar bons tempos com as minhas amigas ao Dubai?? Deveremos marcar já esta viagem?

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aulas

Falei há uns dias que tinha tido um trabalho diferente, um desafio quase. Nos primeiros 15 dias do mês de Junho fui convidada para dar aulas numa faculdade em Luanda. Uma experiência nova e muito interessante que passou a fazer parte do meu currículo. Enquanto aguardo algumas respostas a algumas entrevistas que fui, decidi aceitar. Apesar de nunca ter dado aulas, a disciplina, Desenho Técnico e Desenho Assistido por Computador (autocad) é algo que domino completamente e isso facilitava bastante as coisas e por isso decidi aceitar. Dar aulas era algo que sempre me assustou, pois sempre acreditei que é preciso uma verdadeira vocação para ensinar. É para mim mais que um emprego ou um trabalho.  Foram 15 dias intensos. O programa da faculdade é organizado por módulos e isso pressupõe dar as horas correspondentes à disciplina em questão seguidas. Ou seja, os meus alunos, que nunca tinham visto desenho à frente, tiveram dez dias seguidos, cada um deles com cinco horas diárias de riscos, réguas, esquadros e comandos num ecran negro.Ou seja, em duas semanitas levaram com 50 horas da minha pessoa! Não é nem foi fácil. No fim desta maratona, um exame! Tudo nesta experiência foi novo. TUDO! Ensinar desenho a quem nunca o teve, ensinar autocad a alunos que nem desenho à mão entendem ou mesmo alunos que nunca mexeram em computadores e estão no primeiro ano de engenharia informática. É bom constatar o interesse da maioria no ensino superior, mas parece-me a mim, (longe de querer perceber mais do que devo sobre a forma de educar gerações futuras num pais fragilizado) que há que investir mais no ensino até chegar a este ponto. Não adianta andarem na faculdade quando muito do que se passa para trás e até ao ensino superior foi com o vento e a poeira de Luanda. Não adianta pagar propinas (e muitas) e frequentarem aulas, perdendo com isso tempo para trabalhar e sustentar (muitos!!) famílias quando as bases ficaram esquecidas lá atrás. É preciso recuperar alguns ensinamentos básicos para depois conseguir atingir alguns níveis universitários.

São assuntos muito profundos e extremamente problemáticos mas acabei por dar comigo preocupada em chumbar a turma toda, ou pelo contrário passar a turma toda sabendo eles o que sabem. Não sei como se resolvem estes assuntos, mas não é nesta geração certamente. E provavelmente na próxima também não. 

Estes quinze dias fizeram-me lembrar os meus tempos de faculdade e inevitavelmente fazer comparações. Era uma cachopa logicamente, sem preocupações que não fossem o look ou o namorado da altura. E a faculdade fez-me crescer! O primeiro ano, apesar de todas as loucuras ou melhor graças também a todas elas, porque com loucuras também se cresce, fizeram-me evoluir. Lembro-me como se fosse hoje da primeira aula de arquitectura com o Arqº Mário Mesquita (um senhor que entretanto já faleceu!!!). Lembro-me do meu pânico quando ele afirmou que a partir desse momento a nossa vida privada acabava e as nossas horas seriam dedicadas quase exclusivamente ao curso. Não foi bem assim, mas houve semanas que foi quase. Houve noites e noites sem dormir, semanas sem namorar ou sair, olheiras sem fim e muitos dias até sem banho! Mas também houve muita (e muito boa) borga, muitos amigos, muitas saídas até o sol nascer. Mas houve sobretudo o crescer! O perceber que se queríamos aquilo para a nossa vida futura tínhamos de fazer por isso, tínhamos de sofrer. O curso ia sair-nos da pele e com muito suor! E saiu. E custou! E muitas e muitas vezes doeu muito. E deu vontade de desistir. Mas fez-se! Mas olho agora para os meus alunos e penso….Como pode a maioria deles dedicar-se assim se : trabalha para pagar o curso; levanta-se as 4.30 da manha para começar as aulas às 7; não têm dinheiro para material, nem para exames de recurso, nem para folhas ou réguas; a maioria tem filhos que tem de sustentar e cuidar quando chega a casa…Enfim, um mar de situações que não ajudam a tirar um curso universitário. É fácil constatar a precariedade do ensino que os meus alunos obtiveram até aqui. Se dermos uma régua ou esquadro a uma criança portuguesa, com pouco mais de 10 anos, essa criança facilmente maneja tal objecto, pois está habituada a usa-lo, a ve-lo em casa até.. Estes alunos não o usaram nunca, não o possuem em casa e como tal não é num dia que se recuperam coisas que a mente está preparada para absorver noutras idades.
Eu sei que muitos dirão que em Portugal também há quem trabalhe e estude. É verdade sim senhor! Mas gente…não comparem condições que não podem ser comparadas. Mas aí surge o dilema. Não posso passar alunos pela sua boa vontade ou esforço em levantar cedo e fazerem duas horas de candongueiro para aqui chegarem. Ou que não sabem sequer o que é a verdadeira grandeza de uma medida, ou que não sabem traçar ângulos.
Dei por mim varias vezes a pensar que gostava de lhes dar aulas durante um ano, gostava de ver os progressos, porque felizmente também os houve. Também houve alegrias dessas! Alunos que começaram do zero e tiveram dezassete! Mas precisava de tempo, muito tempo. E estes programas deveriam ter isso em conta. Que não podem, nem devem ser iguais aos programas europeus ou americanos, pois as bases destas gentes também não o são. Eles chegam lá, mas há que começar do início.
Há muito ainda a fazer!