Estes
primeiros dias de aulas têm sido recheados de emoções. Emoções boas e outras
que nem tanto. Se há coisinha que me tira do sério nesta terra é a falta de
respeito que existe no trânsito. Este pessoal não sabe o que é respeito entre
veículos e motoristas. E se no início, quando para cá vim, dava passagem a tudo
e a todos, principalmente aos angolanos (sim, é uma questão de medo de
confusão), hoje em dia a coisa não é bem assim. Não dou passagem se não tiver
de dar. Se se meterem pelas bermas ou à “fangios” não dou passagem. E se forem
brancos então ainda menos. Se há alturas em que ainda pondero (no caso por
exemplo de militares...sim dou!) no caso de serem brancos não hesito mesmo.
Acho uma
vergonha que os portugueses que para cá vieram trabalhar ao fim de meia dúzia
de semanas já conduzam sem qualquer tipo de regras. Gostava muito de saber se
quando chegam a Portugal fazem as mesmas asneiras vergonhosas. É exactamente
isso que lhes pergunto muitas vezes aos gritos de dentro do meu carro. Embora
eles não me respondam. Já ouvi respostas de pessoas próximas do género “em Roma sê romano” mas não me vejam com
historias. Agora vamos ficar estúpidos a conduzir? Vamos ultrapassar pela
direita? Vamos andar nas bermas? Vamos andar em sentido contrario e vamos fazer
5filas numa rua de dois sentidos? Haja santinha paciência porque santa já não
chega. Porque carga de agua acha que uma pessoa que tem o direito de passar à
frente de todos aqueles que estão numa fila há horas? O que leva uma pessoa ao
volante a achar que é mais inteligente que os outros ou que merece passar
enquanto os outros permanecem parados? Não entendo! E se posso tentar entender
quem sempre conduziu assim e não aprendeu doutra maneira, não consigo
compreender quem em Portugal conduz duma forma e aqui doutra. Para esses não há
paciência. Isso chama-se estupidez. E ficooooooooooooo tola com tanta!
Depois por
outro lado há coisas curiosas que me apercebo nas aulas. Estas novas turmas,
muito maiores (a turma da noite tem 65 alunos) têm originado novas experiências
e novas descobertas sobre dar aulas, sobre alunos e particularmente sobre
alunos angolanos. Uma delas é o respeito que os alunos têm pelo “delegado de
turma”. Normalmente são alunos mais velhos, elegidos pela turma e muito
respeitados por esta. A sua palavra é ordem. É lei.
Acontecem situações
engraçadas muito engraçadas frutos desta hierarquia. Ainda hoje, um aluno
entrou na aula de manha de chapéu. E o Sr Manuel, prontamente(sim, porque é um
aluno realmente mais velho que eu) olha e diz com uma calma impressionante “
colega, está sol cá dentro?”. E esse aluno, um puto novo, automaticamente tirou
o chapéu dizendo “ peço desculpa!”. O mais velho fala e o mais novo obedece sem
questionar. Quando a turma começa a falar por exemplo, mesmo antes de eu
intervir, o Sr. Manuel manda-os calor. E eles calam-se (bem, a maioria das
vezes!). É engraçado ver como certos hábitos ainda estão tão presentes na
cultura angolana. Engraçado e quase contraditório. Este exemplo seria
praticamente impossível de acontecer em turmas portuguesas. Nos, e eu falo
também por mim enquanto fui aluno, nunca admitiria uma ordem de um colega
apenas por este ser mais velho. Se há situações que me espantam pela negativa,
como a falta de regras de transito com que me deparo diariamente, ou a falta de
limpeza das ruas pois tudo se atira para o chão, há outras como esta que me
fazem relembrar valores muitas vezes esquecidos em Portugal. O respeito pelos
mais velhos é uma coisa que aqui ainda conta muito.
Ser “mais
velho” aqui é num posto. É quase que um nome e não um adjectivo. O próprio Presidente
é apelidado muitas vezes de “o mais velho” como se isso representasse um
conhecimento, um acumular de sabedoria. Ele é O mais velho de todos. O que sabe
mais. Ou seja, respeitam o delegado, acatam o que ele diz, mas depois afiam os
lápis para o chão, ou não entendem o que são filas. Haja contradição nesta
terra de ultramar. E como se diz na minha: “dão uma no cravo e outra na
ferradura”.






















