Falei há uns dias que tinha tido um trabalho diferente, um desafio quase. Nos primeiros 15 dias do mês de
Junho fui convidada para dar aulas numa faculdade em Luanda. Uma experiência
nova e muito interessante que passou a fazer parte do meu currículo. Enquanto
aguardo algumas respostas a algumas entrevistas que fui, decidi aceitar. Apesar
de nunca ter dado aulas, a disciplina, Desenho Técnico e Desenho Assistido por
Computador (autocad) é algo que domino completamente e isso facilitava bastante
as coisas e por isso decidi aceitar. Dar aulas era algo que sempre me assustou, pois sempre acreditei que é preciso uma verdadeira vocação para ensinar. É para mim mais que um emprego ou um trabalho. Foram 15 dias intensos. O programa da faculdade é
organizado por módulos e isso pressupõe dar as horas correspondentes à
disciplina em questão seguidas. Ou seja, os meus alunos, que nunca tinham visto desenho à
frente, tiveram dez dias seguidos, cada um deles com cinco horas diárias de
riscos, réguas, esquadros e comandos num ecran negro.Ou seja, em duas semanitas levaram com 50 horas da minha pessoa! Não é nem foi fácil. No fim desta maratona, um
exame! Tudo nesta experiência foi novo. TUDO! Ensinar desenho a quem nunca o
teve, ensinar autocad a alunos que nem desenho à mão entendem ou mesmo alunos que nunca
mexeram em computadores e estão no primeiro ano de engenharia informática. É bom constatar
o interesse da maioria no ensino superior, mas parece-me a mim, (longe de querer
perceber mais do que devo sobre a forma de educar gerações futuras num pais
fragilizado) que há que investir mais no ensino até chegar a este ponto. Não adianta andarem na faculdade quando muito do
que se passa para trás e até ao ensino superior foi com o vento e a poeira de
Luanda. Não adianta pagar propinas (e muitas) e frequentarem aulas, perdendo com
isso tempo para trabalhar e sustentar (muitos!!) famílias quando as bases
ficaram esquecidas lá atrás. É preciso recuperar alguns ensinamentos básicos para
depois conseguir atingir alguns níveis universitários.
São assuntos muito profundos e extremamente
problemáticos mas acabei por dar comigo preocupada em chumbar a turma toda, ou
pelo contrário passar a turma toda sabendo eles o que sabem. Não sei como se resolvem estes assuntos, mas não é
nesta geração certamente. E provavelmente na próxima também não.
Estes quinze
dias fizeram-me lembrar os meus tempos de faculdade e inevitavelmente fazer
comparações. Era uma cachopa logicamente, sem preocupações que não
fossem o look ou o namorado da altura. E a faculdade fez-me crescer! O primeiro
ano, apesar de todas as loucuras ou melhor graças também a todas elas, porque
com loucuras também se cresce, fizeram-me evoluir. Lembro-me como se fosse hoje
da primeira aula de arquitectura com o Arqº Mário Mesquita (um senhor que entretanto já faleceu!!!). Lembro-me
do meu pânico quando ele afirmou que a partir desse momento a nossa vida
privada acabava e as nossas horas seriam dedicadas quase exclusivamente ao
curso. Não foi bem assim, mas houve semanas que foi quase. Houve noites e
noites sem dormir, semanas sem namorar ou sair, olheiras sem fim e muitos dias
até sem banho! Mas também houve muita (e muito boa) borga, muitos amigos,
muitas saídas até o sol nascer. Mas houve sobretudo o crescer! O perceber que
se queríamos aquilo para a nossa vida futura tínhamos de fazer por isso,
tínhamos de sofrer. O curso ia sair-nos da pele e com muito suor! E saiu. E custou! E muitas e muitas vezes doeu
muito. E deu vontade de desistir. Mas fez-se! Mas olho agora para os meus
alunos e penso….Como pode a maioria deles dedicar-se assim se : trabalha para
pagar o curso; levanta-se as 4.30 da manha para começar as aulas às 7; não têm
dinheiro para material, nem para exames de recurso, nem para folhas ou réguas;
a maioria tem filhos que tem de sustentar e cuidar quando chega a casa…Enfim,
um mar de situações que não ajudam a tirar um curso universitário. É fácil constatar a precariedade do ensino que os
meus alunos obtiveram até aqui. Se dermos uma régua ou esquadro a uma criança
portuguesa, com pouco mais de 10 anos, essa criança facilmente maneja tal
objecto, pois está habituada a usa-lo, a ve-lo em casa até.. Estes alunos não o
usaram nunca, não o possuem em casa e como tal não é num dia que se recuperam
coisas que a mente está preparada para absorver noutras idades.
Eu sei que muitos dirão que em Portugal também há
quem trabalhe e estude. É verdade sim senhor! Mas gente…não comparem condições
que não podem ser comparadas. Mas aí surge o dilema. Não posso passar alunos
pela sua boa vontade ou esforço em levantar cedo e fazerem duas horas de
candongueiro para aqui chegarem. Ou que não sabem sequer o que é a verdadeira
grandeza de uma medida, ou que não sabem traçar ângulos.
Dei por mim varias vezes a pensar que gostava de
lhes dar aulas durante um ano, gostava de ver os progressos, porque felizmente
também os houve. Também houve alegrias dessas! Alunos que começaram do zero e
tiveram dezassete! Mas precisava de tempo, muito tempo. E estes programas
deveriam ter isso em conta. Que não podem, nem devem ser iguais aos programas
europeus ou americanos, pois as bases destas gentes também não o são. Eles
chegam lá, mas há que começar do início.
Há muito ainda a fazer!