Cape Town é uma cidade fabulosa. Já aqui tinha falado dela das anteriores vezes que lá estivemos. Mas sempre que lá vamos as sensações são muito diferentes. A primeira vez, por altura do Campeonato do Mundo, em Junho de 2010, a euforia era total. Portugal ia jogar, a cidade estava repleta de turistas como nós, ouvia-se português, via-se a nossa bandeira, enfim...Adorei a cidade, mas quem não adoraria qualquer cidade nestas condições? Para não falar na nossa vitória de 7-0 sobre a Coreia, um jogo debaixo de chuva mas nem por isso menos espectacular. Acho que sempre que me lembro desses momentos, de ouvir "Waka Waka" seguido do nosso hino sob aquela chuva torrencial me arrepio. E não é de frio!
Da segunda vez, fomos no Verão, Março de 2011. CT com calor e muito sol é ainda mais espectacular. Visitamos sítios novos, repetimos antigos, aprendemos mais sobre esta cidade e este país e ficamos a gostar ainda mais.
Desta vez decidimos voltar a três. Ainda que o Guilherme aparentemente aproveite pouco destas viagens, é bom viajar a três. É bom repetir sítios que se gostou ou descobrir locais novos em família. Tirar fotos que ficarão para sempre e desta vez a três. Tivemos a nossa primeira experiência na passagem de ano, na ida à Cote D'Azur e correu tão bem, que não hesitamos em repetir. Claro que agora a viagem era diferente. Dessa vez levamos o Guilherme e as minhas mamas, desta vez, além do Guilherme teve de ir um aprovisionamento de sopas, papa, leite, biberons, pratos, colheres, etc e tal. Nada que não se resolva!
O Guilherme é um bebé que deve gostar de viajar! Porta-se lindamente no avião e colabora bastante não estranhando cama, carro, tempo etc. Acho até que come melhor quando anda no passeio do que em casa.
Fomos apenas quatro dias, mas souberam muito bem. Sair de Luanda para uma cidade como CT é qualquer coisa como "apanhar um ar fresco quase europeu " e sabe sempre bem.
Mas desta vez, talvez por ir em família, houve coisas que chamaram mais à minha atenção. África do Sul é um país sem dúvida belíssimo e com um enorme potencial turístico, mas extremamente racista. Muito racista mesmo. Dos mais racista que conheço. E aliás muitíssimo mais racista que Angola por exemplo. Conheço outros países africanos, subsaarianos, como a Tanzania, a Namibia ou Moçambique e em nenhum deles vi situações como em Africa do Sul. Quando estivemos em
Joanesburgo já tinha abordado este assunto com locais, e ouvi relatos preocupantes, mas na minha inocência, ou estupidez, achava que em CT, talvez devido à sua beleza e à sua proximidade de um dos maiores marcos da luta contra o Apartheid,
Robben Island, hoje em dia o racismo já não fosse tão visivel. Mas é!
Em Cape Town é impossível ver num restaurante um grupo multi racial. E nem sequer se vê uma mesa de negros a jantar. Os melhores restaurantes são exclusivamente frequentados por brancos e os empregados são negros, sendo que o gerente de sala poderá ser negro, mas na grande maioria é branco.Pergunto a mim mesma...Não haverá numa cidade inteira, a segunda mais populosa do país, negros com capacidade financeira para frequentar estes restaurantes? Tenho a certeza que sim, até porque o partido actualemnte no governo é um "partido negro", logo, consequentemnete terá de haver negros com capacidade monetaria. Até porque CT não é uma cidade cara e em alguns dos seus melhores restaurantes, é possivel de almoçar ou jantar por menos de 50€.
Isso faz-me uma confusão tremenda! Se até alguns anos havia aqui uma justificação para esta separação (uma justificação abominavel mas isso são outros 500!) agora já não há! Nestes últimos anos, os jovens brancos, negros, mestiços ou seja qual for o raio do adjectivo que lhes atribuem, e que à semelhança do que se passa em Angola faz parte do bilhete de identidade, deveriam frequentar as mesmas escolas, as mesmas universidades, as mesmas igrejas, praias, autocarros etc, e consequentemente deveriam fazer amigos de todas as cores. Deveriam namorar entre si, casar, ter filhos, não? Como é possível que isso, passados 19 anos ainda não aconteça? O fim do apartheid, onde as pessoas eram separadas em negros, brancos, de cor ou indianos, foi oficialmente declarado em 1994 e hoje em dia não há brancos com amigos negros? Há milhares de crianças que já nasceram livres desta estupidez de leis e preconceitos, porque não há misturas? Porque não há escolas "multi raciais"? E quando eu digo que não acontece, não quero dizer que não seja comum. Quero dizer que não acontece MESMO. Quero dizer que estive quatro dias a reparar neste facto e não vi um único casal multi racial, um único grupo de amigos "colorido", um único grupo de negros a jantar onde jantei ou almocei. Vi negros a fazer compras, mas negros turistas. Negros ingleses, americanos e de um ou outro pais africano como Angola ou Zimbawe, mas não vi negros sul-africanos. Como é isto possível? Já tinha ouvido pela boca da minha manicure de cá (de Luanda) que o fim do apartheid era um mito. Aliás...um mito estranho segundo ela. Neste momento, em África do Sul, os negros "negros"(verdadeiramente negros) são beneficiados pelo Governo do Jacob Zuma, actual presidente, enquanto que os brancos, de ascendência inglesa ou holandesa, loiros, esqualidos e de olhos azuis mantêm os privilegios de sempre. Tudo o resto "não existe". Mestiços, emigrantes de outros países africanos, descendentes de indianos, são praticamente marginalizados, sendo-lhes extremanente dificil arranjar emprego e casa por exemplo. Pensar e repensar nestas questões todas, num país que eu gosto faz-me muita confusão e até repensei aquela minha ideia que gostaria de trabalhar lá. Eu até gostava de viver em CT, trabalhar em CT, mas nem pensar, nem ao de muito longe, educar o meu filho tendo por base estas segregações. São segregações demasiado enraizadas nas mentes para que apenas o fim de algumas politicas consiga modificar a vida do dia a dia.
Mas à parte destas minhas considerações sobre como se consegue viver assim as mini férias foram optimas e mais uma vez Cape Town deslumbrou. E o Guilherme deslumbrou Cape Town distribuindo sorrisos e gargalhadas por todo o lado e toda a gente!!!!!!!!!!! Ficamos num hotel impecavel em Sea Point, o
Winchester, mesmo em frente à praia. Muitissmo bem localizado, com uma arquitectura a relembrar epocas inglesas e a um preço bastante acessivel. Alugamos carro e passeamos pela Peninsula do Cabo e o Guilherme, um dia na escola, quando estudar os Descobrimentos, poderá olhar para o mapa e pensar que já esteve lá, onde os Portugueses brilharam.
Aterragem - A vista surpreendente da Table Moutain e do Lion's Head e a habitual nevoa
Aterragem - A vista do Cabo da Boa Esperança
Nós no Cabo da Boa Esperança
(onde a presença portuguesa é praticamente ignorada)
a estrada que nos leva ao Cabo
Waterfront
O estadio (dos mais lindos que já vi) onde fomos tão felizes
Eu e o Pocoyo a comer ostras
aprender a conduzir pela direita
o patio do hotel
Hotel (imagem retirada do site)
Visita de estudo em Waterfront - Como referi acima..Não há misturas de "cores"
Uma replica de uma nau (note-se a comparação do seu tamanho com o catamaran ao lado)
uma das melhores sandwich Club que já comi na vida..
Eu e certamente o novo leão do Gui
Viagem de regresso a sobrevoar o Pan do Etosha, Namibia