a Miau Miau e o Guilherme
Há muitos tipos de mães. Eu conheço imensos tipos. Entre as minhas amigas e família, já para não falar em mães de outras gerações, identifico géneros muito diferentes. Mais preocupadas, menos stressadas, menos pink, mais tradicionais, todas são distintas. Mas somos todas mães com um background mais ou menos igual. Todas nascidas e criadas num paraíso à beira mar plantado, todas com mais ou menos estudos, todas com mais ou menos possibilidades financeiras e consequente qualidade de vida (se é que isso tem ligação, o que ultimamente me tem dado para pensar bastante).
Desde que cheguei a Luanda e desta vez com um bebé nos braços, as conversas invariavelmente vão dar ao Guilherme. Como ele se dá, se gosta, se não..(ele não diz grande coisa sobre o assunto ainda!) o que eu acho de ser mãe aqui etc etc.
Mas tive duas conversas que me marcaram. Que me fizeram pensar e me deram a conhecer na primeira pessoa, dois tipos de mães muito diferentes de todas as minhas amigas e conhecidas de Portugal. Dois tipos de mães, dois tipos de amor, dois tipos de sacrificios diferentes.
A primeira mãe, a Pequena (sim, é esse o nome dela), era a nossa empregada na guest house da empresa do Nuno. Um dia, enquanto limpava a casa, e chamava "Branquinho" ao Gui (acho que nunca soube dizer o nome dele) perguntou pelo irmão dele. Eu, admirada com a pergunta, respondi que o G era filho único, que não tinha deixado nenhum outro filho mais velho em Portugal. A Pequena riu-se..
- "Então o Branquinho é o Mimoso"?
- Mimoso quer dizer filho único Pequena?
- Mimoso é o primeiro...
- Então sim, o Guilherme é o mimoso..(as coisas que eu aprendo).
A Pequena contou-me então que os seus dois primeiros filhos eram "falecidos". O primeiro, com oito meses, morreu de "febres" (paludismo, perguntei eu? - febres respondeu ela!) e a segunda, uma menina de nove meses, morreu de "diarreia".
Não se referiu a eles pelo nome nem sequer me deu mais detalhes. Também não os deve saber. Se era uma conversa sofrida? Acho que sim, mas um sofrimento diferente do nosso. Um sofrimento conformado, aceite, uma dor aos meus olhos não normal, talvez demasiado leve se é que isso é possível. Não acho que aqui em África, por terem mais filhos (muitas vezes demasiados!) os amem menos, mas penso que estão tão habituados à sua vida ser uma desgraça, uma perda constante, que tudo é normal. Os filhos morreram é normal..Não chegarem ao primeiro ano de vida era muito normal.
A Pequena explicava-me então perante o meu silêncio que naquela altura era "normal". Havia a guerra, eles estavam nas Lundas (província norte de Angola) e a UNITA não os deixava viajar. Não havia grandes hospitais (se ainda agora é o que é, não imagino há vinte anos), não havia médicos e era habitual dizia-me ela. Fiquei sem saber bem o que comentar e só conseguia abanar com a cabeça e dizer "pois...".
O que se diz a uma mãe que perdeu dois filhos? Não sei.
A segunda conversa que me marcou foi com uma chinesa que trabalha no restaurante da empresa do Nuno. De nome Miau Miau (acho que não se escreve assim, mas é assim que se diz, e eu acho uma delicia de nome) agarra-se ao Guilherme de cada vez que entro para jantar. Com a desculpa de ser prestável e dessa forma eu poder jantar à vontade, mal entramos ela cola-se ao "pequeno Nuno" (até a chininha os acha iguais) até eu dizer para ela pegar nele. Quando lhe é dada permissão é emocionante ver a forma como o agarra -eu acho que ele também gosta muito dela, mas tenho algumas dúvidas que não seja por ela ser parecida com os desenhos animados !!-
A Miau Miau deixou duas filhas no interior da China para vir trabalhar para Luanda. Uma com dois anos e uma com quatro. Não as vê há mais de um ano e só as vai ver no próximo.
Somos todas mães mas em continentes diferentes. O amor é o mesmo certamente mas vive-se em línguas distintas.