quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aulas

Falei há uns dias que tinha tido um trabalho diferente, um desafio quase. Nos primeiros 15 dias do mês de Junho fui convidada para dar aulas numa faculdade em Luanda. Uma experiência nova e muito interessante que passou a fazer parte do meu currículo. Enquanto aguardo algumas respostas a algumas entrevistas que fui, decidi aceitar. Apesar de nunca ter dado aulas, a disciplina, Desenho Técnico e Desenho Assistido por Computador (autocad) é algo que domino completamente e isso facilitava bastante as coisas e por isso decidi aceitar. Dar aulas era algo que sempre me assustou, pois sempre acreditei que é preciso uma verdadeira vocação para ensinar. É para mim mais que um emprego ou um trabalho.  Foram 15 dias intensos. O programa da faculdade é organizado por módulos e isso pressupõe dar as horas correspondentes à disciplina em questão seguidas. Ou seja, os meus alunos, que nunca tinham visto desenho à frente, tiveram dez dias seguidos, cada um deles com cinco horas diárias de riscos, réguas, esquadros e comandos num ecran negro.Ou seja, em duas semanitas levaram com 50 horas da minha pessoa! Não é nem foi fácil. No fim desta maratona, um exame! Tudo nesta experiência foi novo. TUDO! Ensinar desenho a quem nunca o teve, ensinar autocad a alunos que nem desenho à mão entendem ou mesmo alunos que nunca mexeram em computadores e estão no primeiro ano de engenharia informática. É bom constatar o interesse da maioria no ensino superior, mas parece-me a mim, (longe de querer perceber mais do que devo sobre a forma de educar gerações futuras num pais fragilizado) que há que investir mais no ensino até chegar a este ponto. Não adianta andarem na faculdade quando muito do que se passa para trás e até ao ensino superior foi com o vento e a poeira de Luanda. Não adianta pagar propinas (e muitas) e frequentarem aulas, perdendo com isso tempo para trabalhar e sustentar (muitos!!) famílias quando as bases ficaram esquecidas lá atrás. É preciso recuperar alguns ensinamentos básicos para depois conseguir atingir alguns níveis universitários.

São assuntos muito profundos e extremamente problemáticos mas acabei por dar comigo preocupada em chumbar a turma toda, ou pelo contrário passar a turma toda sabendo eles o que sabem. Não sei como se resolvem estes assuntos, mas não é nesta geração certamente. E provavelmente na próxima também não. 

Estes quinze dias fizeram-me lembrar os meus tempos de faculdade e inevitavelmente fazer comparações. Era uma cachopa logicamente, sem preocupações que não fossem o look ou o namorado da altura. E a faculdade fez-me crescer! O primeiro ano, apesar de todas as loucuras ou melhor graças também a todas elas, porque com loucuras também se cresce, fizeram-me evoluir. Lembro-me como se fosse hoje da primeira aula de arquitectura com o Arqº Mário Mesquita (um senhor que entretanto já faleceu!!!). Lembro-me do meu pânico quando ele afirmou que a partir desse momento a nossa vida privada acabava e as nossas horas seriam dedicadas quase exclusivamente ao curso. Não foi bem assim, mas houve semanas que foi quase. Houve noites e noites sem dormir, semanas sem namorar ou sair, olheiras sem fim e muitos dias até sem banho! Mas também houve muita (e muito boa) borga, muitos amigos, muitas saídas até o sol nascer. Mas houve sobretudo o crescer! O perceber que se queríamos aquilo para a nossa vida futura tínhamos de fazer por isso, tínhamos de sofrer. O curso ia sair-nos da pele e com muito suor! E saiu. E custou! E muitas e muitas vezes doeu muito. E deu vontade de desistir. Mas fez-se! Mas olho agora para os meus alunos e penso….Como pode a maioria deles dedicar-se assim se : trabalha para pagar o curso; levanta-se as 4.30 da manha para começar as aulas às 7; não têm dinheiro para material, nem para exames de recurso, nem para folhas ou réguas; a maioria tem filhos que tem de sustentar e cuidar quando chega a casa…Enfim, um mar de situações que não ajudam a tirar um curso universitário. É fácil constatar a precariedade do ensino que os meus alunos obtiveram até aqui. Se dermos uma régua ou esquadro a uma criança portuguesa, com pouco mais de 10 anos, essa criança facilmente maneja tal objecto, pois está habituada a usa-lo, a ve-lo em casa até.. Estes alunos não o usaram nunca, não o possuem em casa e como tal não é num dia que se recuperam coisas que a mente está preparada para absorver noutras idades.
Eu sei que muitos dirão que em Portugal também há quem trabalhe e estude. É verdade sim senhor! Mas gente…não comparem condições que não podem ser comparadas. Mas aí surge o dilema. Não posso passar alunos pela sua boa vontade ou esforço em levantar cedo e fazerem duas horas de candongueiro para aqui chegarem. Ou que não sabem sequer o que é a verdadeira grandeza de uma medida, ou que não sabem traçar ângulos.
Dei por mim varias vezes a pensar que gostava de lhes dar aulas durante um ano, gostava de ver os progressos, porque felizmente também os houve. Também houve alegrias dessas! Alunos que começaram do zero e tiveram dezassete! Mas precisava de tempo, muito tempo. E estes programas deveriam ter isso em conta. Que não podem, nem devem ser iguais aos programas europeus ou americanos, pois as bases destas gentes também não o são. Eles chegam lá, mas há que começar do início.
Há muito ainda a fazer!

1 comentário:

  1. Maratona mesmooooo!!! Não sabia que tinham sido 15 intensivos...
    Imagino a dificuldade de dar aulas nessas condições... não deve ter sido nada, mas nada fácil!!!
    Ficaste a conhecer mais um bocadinho desse país que agora também é teu :)
    Beijinhos

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